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Quarta-feira, 10 de março de 2010

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John Wesley, um precursor da Visão!

 

Dispense a disciplina e enfraqueça a Igreja.

(Charles Edward White)


          Embora os Metodistas atraíssem grandes multidões, sua sobrevivência dependia da disciplina de pequenos grupos.

         Quando o movimento metodista começou a crescer, John Wesley enfrentou o problema de lidar com convertidos que voltavam aos seus antigos hábitos.

         Muitos vinham de classes sociais mais baixas, não tendo, assim, nada que os ajudasse a viver “sóbrias, tranqüilas e abençoadas vidas”, como Wesley prescrevia.

         A sua apostasia (abandono da Palavra de Deus, da fé em Deus) desencorajava aqueles que estavam tentando seguir a Cristo e também dava munição aos detratores do metodismo.

A solução para esse problema veio de uma forma inesperada. Os metodistas tinham contraído uma dívida para construir uma casa de pregações. Em um esforço para pagá-la, os líderes, voluntariamente, visitavam cada metodista para recolher um pennie, todas as semanas.

         Perceberam que seria mais fácil as pessoas irem até os líderes, surgindo, então, as reuniões de classes, que além de recolherem os pennies, assumiram caráter mais pastoral do que financeiro.

         Os líderes recolhiam os pennies, instruíam os membros e checavam o seu progresso espiritual.

         Wesley convenceu-se que esta prática não poderia prosperar sem disciplina. O Metodismo prosperou com a disciplina cristã, alcançando um milhão de pessoas antes da morte de Wesley. A disciplina cristã funcionava por meio de quatro grandes estratégias: 1) ele a pregava; 2) ele ensinava seus líderes leigos a administrá-la amorosamente; 3) organizou as pessoas em grupos pequenos, nos quais elas podiam cuidar umas das outras; 4) ele propagava os benefícios da obediência ao Senhor.

         Wesley freqüentemente pregava um sermão sobre Mateus 18, a passagem na qual Jesus descreveu os passos a serem dados quando da descoberta de pecado em um irmão.  Ele disse que a advertência, para começar o processo de disciplina cristã, não era uma sugestão, mas um “comando direto de Deus”. “Este é o caminho, entrem por ele!”.

         Ensinando sobre um Co 5, quando Paulo fala à congregação para lançar fora o homem imoral, Wesley comentou que a congregação tinha a responsabilidade de libertar a si mesma do homem impenitente, porque “um pecado, ou um pecador ... difunde culpa e infecção por toda a congregação.”

 

         Lembrou a seus seguidores que a Igreja Primitiva praticava a disciplina. Dizia que era um dito comum entre os cristãos das Igrejas Primitivas: “a alma e o corpo fazem o homem, o espírito e a disciplina fazem um cristão”. Sem a ajuda da disciplina cristã ninguém pode ser realmente um cristão.

         A Igreja precisa de disciplina, pois sem ela não pode haver um verdadeiro cristianismo. “Onde quer que a disciplina não faça parte da doutrina, ela não tem pleno efeito sobre os ouvintes”.

         Wesley vivia uma vida disciplinada e conclamava outros metodistas a viverem segundo o mesmo padrão. Pregava o Metodismo para os camponeses céticos. Mantê-los na linha e comportados era muito difícil e dependia dos líderes das classes para manter a ordem nos intervalos de suas visitas.

         Lendo partes de seu diário percebe-se que ele gastava quase tanto tempo expulsando pessoas das sociedades metodistas quanto persuadindo outros a se juntarem a elas.

         Durante uma de suas visitas a Bristol, ele excomungou quase 20% da sociedade, por pecados como bebedeira, práticas desonestas nos negócios, fofoca, roubo, discussões em público e trapaça no pagamento dos impostos e taxas.

         Mais tarde, quando ele encontrou um grupo inteiro de metodistas cujo comportamento estava abaixo dos padrões, ele disse a eles, em termos diretos e claros, que eram os “mais ignorantes, soberbos, autoconfiantes, inconstantes, intratáveis, desunidos metodistas que eu conheci em três reinos”. Evidentemente, o grupo ouviu bem, pois Wesley relatou que “muitos foram tocados e nem um ficou ofendido”.

         Tudo o que ele aprendia por meio da sua experiência na administração da disciplina, ele passava para sermões como “O dever de repreender nosso vizinho e A cura das más línguas”.

         A chave para o sucesso em um caso de aplicação da disciplina cristã para Wesley, era o espírito daquele que expunha o pecado.

         Como se dependia muito de um espírito correto, aquele que fosse repreender deveria primeiro pedir que o Senhor “guardasse seu coração, iluminasse sua mente e dirigisse sua língua”. O servo do Senhor deve “evitar qualquer coisa no olhar, no gesto, na palavra e no tom de voz que pudesse demonstrar orgulho ou auto-suficiência”.  Acima de tudo, o amor deve ser o motivo para a disciplina. Citando um hino de seu irmão, Wesley disse:

         Love can bow down the stubborn neck,

         The stone to flesh convert;

         Soften, and melt, and pierce, and break

         An adamantine heart.

Tradução:

         O amor pode dobrar o pescoço que não se curva,

         Tornar em carne o coração de pedra;

         Amaciar, derreter, quebrar e perfurar um coração rígido.

         Algumas vezes, essa abordagem gentil era bem sucedida, mas, em outras, como Wesley notou, a reprovação “terna e moderada” não tinha efeito. Em tais casos, um ou dois precisariam ir junto com aquele que já havia ido, primeiro expressando o seu amor pelo irmão errante, então apresentando os fatos de seu pecado e, finalmente, exortando-o a se arrepender.

         Caso essa segunda tentativa falhasse, ele aconselhava os cristãos a levarem o assunto à Igreja. Tornava-se responsabilidade do ministro repreender o pecador e, se necessário, colocá-lo para fora da Igreja.

         Wesley dizia a seus ouvintes que o problema estava, então, fora de suas mãos, “tendo vocês, feito tudo, conforme a Palavra de Deus, ou a Lei do Amor, vocês estão isentos; vocês não são cúmplices do seu pecado [do pecador], e, se ele perecer, o seu sangue pesará sobre sua própria cabeça”.

         A ênfase na disciplina com ternura não evitou que, por vezes, Wesley ficasse cego. Quando seu braço direito, Thomas Maxfield, começou a se autoproclamar imune ao pecado e que ninguém poderia ensiná-lo mais coisa alguma, Wesley escreveu uma carta afirmando o que apreciava e o que desaprovava no ministério de Maxfield:

         “Sem prefácio ou cerimônia, que são desnecessários entre nós, eu vou simples e diretamente dizer a você o que eu desaprovo em sua doutrina, espírito ou comportamento público”...

         “Quanto ao seu espírito, eu apreciava sua confiança em Deus e o seu zelo pela salvação das almas. Mas, eu desaprovo algo que tem a aparência do orgulho, de uma super auto-avaliação e subestimação dos outros, particularmente os outros pregadores”.

         Wesley esperava que os outros ministros fossem tão claros e diretos quanto ele, com qualquer pessoa, da mesma forma que ele agia com eles: “diga a qualquer um o que você pensa o que está errado nele, tão direta e brevemente quanto possível, então isso vai chegar ao seu coração. Faça todo o possível para expulsar o fogo do coração de seu amigo”.

 

                     

 

 

Confessando uns aos outros

       Wesley tinha condições de praticar o que pregava sobre disciplina cristã porque ele tinha organizado os seus seguidores em pequenos grupos. Uma sociedade metodista incluía todos os metodistas de uma área. Ela era dividida em grupos, ou classes, de 12 pessoas. As pessoas se reuniam semanalmente para estudar a Bíblia, orar e testemunhar sobre o estado de suas almas.

         Cada classe tinha um líder, que se reportava ao pregador encarregado da sociedade. Wesley publicou uma lista de questões para os líderes das classes ajudarem os membros a se auto-examinarem:

         1 – Quais dos pecados conhecidos você cometeu desde a nossa última reunião?

         2 – Quais tentações você superou?

         3 – Como Deus falou com você?

         4 – Você teve algum pensamento, palavra ou ato que possa ser pecaminoso?

         Quando as respostas revelavam pecados, os infratores tinham uma outra chance. “Se eles abandonassem os seus pecados”, Wesley dizia, “nós os receberemos com alegria; se eles obstinadamente persistirem no pecado, fica claro que eles são como um de nós. Os outros devem, então, lamentar e orar por eles, e se regozijarem, porque até onde vai nosso ponto de vista, o escândalo terá sido afastado para longe da sociedade”.

         Como os líderes conheciam cada membro das classes intimamente, eles podiam adaptar as suas palavras para a necessidade individual de cada um. As reuniões freqüentes significavam que as atitudes erradas podiam ser

         interrompidas antes de se transformarem em atos pecaminosos. Nesse contexto de contato constante, pessoal e amoroso, a disciplina cristã era uma força redentora muito forte.

 

“Faça o certo e nada temas”

       Embora a disciplina cristã tenha rendido resultados tão positivos, os líderes metodistas nem sempre ansiavam por exercê-la. Ao longo de sua carreira, Wesley teve que admoestar seus representantes a examinarem as sociedades e a expelirem os que desobedeciam as regras.

         Nessa linha, ele escreveu para Adam Clarke: “seja exato em cada ponto da disciplina”. Para Francis Asbury, ele defendeu “uma estrita atenção à disciplina”.

         Para William Holmes, quem chegou temer perder a sua congregação, ele mandou a ordem “faça o certo e nada temas. Exclua cada pessoa que não prometa se reunir com uma classe, os líderes, em particular. Eu requeiro que você faça isso. Você não tem escolha. Deixe as conseqüências para Deus”.

         Wesley sabia que a disciplina cristã poderia trazer divisão às Igrejas. Ele, contudo, ordenou que um de seus assistentes removesse um líder faltoso: “Eu solicito que você o coloque fora da nossa sociedade. Se 20 da classe dele também resolvam deixar a sociedade, assim seja. A primeira perda é melhor. Melhor que se percam 40 membros a perder-se a nossa disciplina”.

         No final de seu ministério, Wesley preocupava-se em fazer com que a disciplina cristã permanecesse forte, porque ele sabia que, sem acompanhamento, todo o seu trabalho seria perdido. Uma viagem ao país de Gales, em 1763, fez com que ele fizesse o seguinte alerta para as futuras gerações de metodistas:

         “Eu estou mais convencido do que nunca de que pregar como um Apóstolo, sem reunir aqueles que são despertados e treiná-los nos caminhos de Deus, é como conduzir crianças para serem assassinadas. Quanta pregação foi feita, por mais de 20 anos, em toda a Pembrokeshire? Mas não foram criadas sociedades regulares, não houve disciplina, ordem ou conexão; e a conseqüência é de que nove entre dez daqueles que um dia foram despertados estão agora mais adormecidos do que nunca”.

 

 

“Sede Perfeitos?”

  A evolução da doutrina mais controversa de John Wesley

 

       Quando tinha seis anos, John Wesley ouviu sua mãe admoestando seu irmão mais velho, Samuel a “moralizar todos os seus pensamentos, palavras e ações, o que faria com que alcançasse estabilidade e constância, bem como o tornaria um ser humano razoável e um bom cristão”.

         Este ideal de disciplina, sedimentação ao longo de sua infância, deixou em Wesley o desejo de responder a uma pergunta básica: “Como posso ser o tipo de pessoa que Deus me criou para ser, e que eu verdadeiramente almejo ser, uma pessoa santa no coração e na vida?”.

         Enquanto Wesley estava na faculdade, ele investigou estas questões, lendo avidamente os escritores que enfatizavam mais o espiritual – monges primitivos, místicos da Igreja Católica Romana, pietistas, puritanos e Anglicanos dos movimentos de santidade.

         Embora esses escritores concordassem quanto ao encorajamento da busca da santidade, eles divergiam quanto à possibilidade da verdadeira santidade poder ser alcançada nesta vida. Conseqüentemente, eles ofereciam duas concepções diferentes de perfeição: uma dinâmica e sempre amadurecendo; outra estática, uma conquista irremovível.

         Os primeiros escritos de Wesley refletem a tensão entre essas duas correntes. Ele estimulava a busca de santidade por meio da disciplina espiritual, tipicamente descrevendo o alvo cristão como o “perfeito amor”.

         Simultaneamente, ele escreveu alguns textos negando a possibilidade da “perfeita santidade” nesta vida.

         Os primeiros escritos de Wesley também revelam que as suas aspirações à santidade (santificação) eram conduzidas por um desejo de convicção plena da aceitação divina (justificação).

 

                                            

DEVER A CUMPRIR – Ao final de sua vida, John Wesley acreditava que era seu trabalho promover “a doutrina da Perfeição Cristã, a qual Deus particularmente confiou aos metodistas”.

 

         A experiência de Aldersgate o convenceu de que a justificação precede e fortalece a santificação, mais do que se baseava nela. Assim, ele foi levado a esperar (e a proclamar) que a fé justificadora traria perfeição instantânea.

         Mas ele logo veio a questionar essa expectativa e, em 1741, ele publicou um sermão chamado “Perfeição Cristã”, para responder aos críticos de suas afirmações anteriores. Ele esperou dissipar a ambigüidade ao definir tanto os limites quanto às possibilidades de perfeição humana na terra.

 

Ao Avesso

         Wesley teve que lutar em duas frentes quando buscou clarear seu entendimento sobre a perfeição cristã. Seus oponentes incluíam outros clérigos anglicanos e Jonathan Edwards.

         A maioria dos clérigos anglicanos equiparava santidade às ações apropriadas e assumiam que a convicção racional da “retidão” de uma ação regularmente induzia a essa ação. Em outras palavras, se as pessoas soubessem o que era certo, elas o fariam.

         A jornada espiritual de Wesley minou essas assunções e o levou, pelo contrário, a um modelo “afetivo” de vida cristã.

         Ele insistiu que nossos atos não são produtos de decisões isoladas, mas fluxos de nossos sentimentos interiores, sejam desejos ou disposições. Como tal, nós podemos apenas esperar que resulte santidade de nossas ações se presumirmos, em nosso íntimo, a santidade como a de Cristo.

         Edwards também defendia um modelo afetivo de vida cristã, mas discordava de Wesley quanto ao modo como nós obtínhamos as marcas dessa santidade “como a de Cristo”.

         Edwards acreditava que essas marcas afetivas eram unilateralmente infundidas por Deus e, aparentemente, instantaneamente completas. Wesley, acreditando que a Graça de Deus trabalha cooperativamente para a salvação, argumentou que as marcas surgiam em resposta ao impacto fortalecedor de Deus em nossas vidas. Essas marcas se transformavam em “temperamentos” fortalecidos, quando exercitadas, ou então desapareciam, se as pessoas resistissem a elas.

         Esta convicção está por trás das repetidas afirmações de Wesley: 1) que nós só temos condições de amar a Deus e ao próximo quando primeiro sentimos o amor de Deus por nós; 2) que quando nós permitimos que o amor a Deus e ao próximo flua, ele produz “toda Graça cristã, todo temperamento santo e alegre”. E, a partir disso, espalha santidade uniforme [nas ações] .

 

Agora ou Mais Tarde?

 

       A noção que Wesley desenvolveu da perfeição cristã pode ser resumida dizendo-se que ele acreditava que a graça amorosa pode transformar nossas vidas ao ponto em que nosso amor a Deus e aos próximos se torne a resposta “natural”.

         Mas quão breve nós devemos esperar alcançar esse nível dinâmico de maturidade? Isso se tornou um dos mais polêmicos debates nos círculos wesleyanos. Antes de Aldersgate, Wesley tinha enfatizado a aspiração por santidade, quer antes ou depois da morte. Após Aldersgate, com sua apreciação pela graça de Deus aprofundada, Wesley convenceu-se de que a santidade poderia ser alcançada durante esta vida.

         Mesmo assim, durante as duas primeiras décadas do reavivamento metodista, ele enfatizou, em primeiro plano, a pressão na direção do objetivo, por meio da participação responsável nos meios da graça.

         Apenas ao final daquela segunda década, ele começou enfatizar a busca da perfeição cristã no presente.

LOUCOS METODISTAS – Embora a religião “afetiva” de Wesley almejasse a perfeição, detratores viam seu foco no coração como uma receita para o caos. Nessa gravura satírica, feita por William Hogarth, chamada “Credulidade, Superstição e Fanatismo”, acima, um encontro metodista é retratado como um ninho para a sensualidade, papismo e irracionalidade.

 

É possível que um surto de expectativa em torno do Apocalipse, na segunda metade da década de 1750/60, tenha tido influência nesta mudança – aumentando a preocupação em se alcançar à perfeição cristã antes da volta de Cristo. Mas Wesley também chegou a imaginar, por volta de 1760, se ele vinha trabalhando com um padrão tão elevado para a perfeição cristã que estava acabando por impedir as pessoas de experimentar essa liberdade.

         Para contrapor essa possibilidade, ele começou a enfatizar os limites da libertação do pecado, que surgiam com a perfeição cristã. Com esse objetivo mais modesto em mente, ele encorajou as pessoas a buscarem a rápida libertação.

         No início de 1760, Wesley também já sabia que o aumento da pressão por perfeição cristã agora tinha aumentado a possibilidade de abuso. A Sociedade de Londres, liderada por Thomas Maxfield e George Bell, foi um exemplo dessa realidade perturbadora.

         Maxfield e Bell proclamaram que a perfeição era instantaneamente alcançada pela simples afirmação “Eu creio”, tirando o papel de qualquer crescimento antes desse evento. E eles descreviam essa perfeição como “angelical” ou “absoluta”, tanto que não era mais necessário nenhum crescimento após o evento, ou para continuar o trabalho de Cristo.

         Houve muita controvérsia e Wesley respondeu integrando sua ênfase na obtenção da perfeição cristã nesta vida com sua idéia inicial com sua idéia inicial de crescimento contínuo. Ele articulou esse equilíbrio em seu sermão “O Caminho da Salvação nas escrituras”, de 1765.

         Nem todos os seguidores de Wesley ficaram convencidos de que ele encontrara o equilíbrio apropriado. O dissidente mais significativo foi seu irmão, Charles.

 

Fácil Demais

         Charles recusou-se a adotar as mudanças nas premissas da doutrina da Santificação, que tinham permitido a Wesley chegar à sua conclusão final.

         Na verdade, em reação às mudanças de Wesley e à controvérsia subseqüente, Charles passou a uma expectativa mais exata da perfeição cristã. Ele permaneceu profundamente consciente da imperfeição e acabou se convencendo de que a perfeição somente poderia ser alcançada na morte.

         Por corolário, ele foi progressivamente se tornando mais crítico ao destaque que Wesley dava à santidade em vida. Charles preocupava-se que desafiar os noviciados nessa direção com rapidez causava orgulho e a perda da graça real. Como ele expressou em seu hino sobre Mateus 13:5, de 1762.

        

Lord, give us wisdom to suspect

The growths of seeming grace,

To prove them first, and then reject,

Whose haste their shalloness betrays;

Who instantaneously spring up,

Their own imperfection proves;

They [lack] the toil of patient hope;

They [lack] the root of humble love

 

Senhor, dê-nos sabedoria para suspeitar

Do crescimento repentino da graça aparente,

A primeiro prová-las, e então rejeitá-las

Quando sua fraqueza se torne evidente;

A quem pretender se impor em um instante

Provai que nada mostram, senão grande imperfeição

Nada têm, senão falta de esperança

Nada testemunham de amor e de humilhação.

 

 

Duas Visões sobre perfeição

                          

          John e Charles discordavam quanto à medida de Santidade que um cristão poderia esperar alcançar na Terra, mas os dois irmãos aspiravam por ela.

 

         A perfeição cristã, desta forma, não implica (como alguns homens parecem ter imaginado), uma isenção da ignorância ou do engano, ou enfermidades, ou tentações. Na verdade, é um outro nome para santidade. São dois nomes para a mesma coisa.

         Assim, o perfeito é santo e todo santo é, na visão das Escrituras, perfeito.

         Não há perfeição de graus, como tem sido afirmado; ninguém que não admita a necessidade de contínuo aperfeiçoamento. Não importa quanto um homem já tenha alcançado, ou quão alto grau de perfeição ele tenha, ele ainda terá que “crescer na graça” (2 Pe. 3:18) e, diariamente, avançar no conhecimento e no amor de Deus, seu Salvador (Filipenses 1:9).

         Em que sentido, então, os cristãos são perfeitos? Isto é o que eu devo me esforçar... pra apresentar. Mas devemos ter como premissas que há vários estágios na vida cristã,como na vida natural; algumas das crianças de Deus são como recém nascidas, outras alcançaram mais maturidade. E João, na sua primeira Epístola (1 João 2:12 e seguintes), dirige-se severamente àqueles que ele nomeia como criancinhas, àqueles que ele designa jovens homens e outros ele intitula pais.

         “Eu escrevo a vocês, criancinhas, diz o apóstolo, porque os seus pecados são perdoados. Porque até aqui, vocês têm alcançado a perfeição, sendo livremente justificados, vocês têm paz com Deus, através de Jesus Cristo” (Rom. 5:1)

         “Eu escrevo a vocês, jovens homens, porque vocês superaram o fraco, ou (como ele acrescentaria depois), porque sois fortes, e a Palavra de Deus habita em vocês” (1 João 2:13-14).

         “Vós tendes abatido os dardos inflamados do maligno” (Efésios 6:16), as dúvidas e os medos com os quais ele perturbou a sua paz; e o testemunho de Deus, de que os seus pecados são perdoados, agora habita em seus corações.

         “Eu escrevo a vocês, pais, porque vós tendes conhecido aquele que é desde o princípio” (1 João 2:13). Vós tendes conhecido o Pai, o Filho e o Espírito Santo, no íntimo de sua alma. Vós sois “homens perfeitos, tendo crescido ao nível da estatura da plenitude de Cristo” (Efésios 4:13).

         É sobre esses chefes que eu falei na última parte deste sermão; pois apenas estes são cristãos propriamente. Mas mesmos os bebês em Cristo são, em alguns sensos, perfeitos, ou nascidos de Deus (uma expressão também utilizada com um sentido mais profundo), como, primeiro, não cometer pecado.

         Caso haja alguma dúvida quanto a esse privilégio dos filhos de Deus, a questão não deve ser resolvida com arrazoados abstratos, que podem levar a uma discussão interminável, deixando o assunto no mesmo ponto em que ele estava antes.

         Também não deve ser determinado pela experiência desta ou daquela pessoa em particular. Muitos podem supor que não cometem pecado, mas cometem; mas isso também não aprova nada. Nós apelamos à lei e ao testemunho. “Deixe Deus ser verdade e cada homem um mentiroso” (Romanos 3:4). Nós vamos nos ater à Sua Palavra, e isso sozinhos. Aqui nós devemos ser julgados.

         Agora, a Palavra de Deus declara claramente que, mesmo aqueles que são justificados, que são nascidos de novo, “não continuem a pecar”, que eles não podem “permanecer no pecado” (Romanos 6:1,2).

         A verdade última que está implicada nessas palavras é que, as pessoas referidas, ou seja, todos os cristãos verdadeiros, ou crentes em Cristo, são feitos livres dos pecados anteriores. E a mesma liberdade, que Paulo expressou em tantas frases, Pedro expressou naquela “Ele que tem sofrido na carne, tem cessado de pecar...para que ele não viva para os desejos do homem, mas para a vontade de Deus” (I Pedro 4:12)

         Desse cessar do pecado, se interpretado em seu sentido mais raso, como referente apenas ao comportamento pregresso, pode ser entendido como o cessar dos atos anteriores, de qualquer transgressão anterior da lei.

         Mas mais expressivas são as bem conhecidas palavras de João: “Ele que comete pecado é o diabo; o diabo peca desde o princípio”. “Por este propósito, o Filho de Deus foi manifestado, Ele destruirá fortemente as palavras do diabo”. “Todo aquele que é nascido de Deus não comete pecado; Sua Semente permanecerá nele; e ele não peca porque é nascido de Deus” (I João 3:8,9). E I João 5:18: “Nós sabemos que todo aquele que é nascido de Deus é guardado por Ele mesmo, e o mal não o tocará”.

         Na verdade, diz-se que isso significa apenas “ele pecou sem intenção”, ou “ele não peca habitualmente”, “não como os outros”, ou ainda, “não como ele pecava antes”. Mas, quem disse isso? João? Não! Não há essas palavras em seu texto, nem mesmo no capítulo inteiro, nem em toda sua Epístola, nem em qualquer outra parte de seus escritos. Por que, então, o melhor jeito de se responder a uma afirmação clara e simples como essa é simplesmente negá-la?

         E, se algum homem pode provar que seja diferente, com base na Palavra de Deus, que venha à frente, com fortes argumentos.

                                                                                                                              JohnWesley

 

 

Sonetos de Charles Wesley

 

Oh! Vem em mim morar

Oh! Vem em mim morar,

Espírito de poder.

E traga a gloriosa liberdade

De toda a dor, medo e pecado.

 

Apressa o alegre dia

Em que os pecados meus serão consumidos,

Quando s velhas coisas terão ido embora

E novas todas as coisas serão.

 

Eu careço do testemunho, Senhor,

Que em tudo eu posso ser correto,

Segundo Sua mente e Sua Palavra,

Plenamente satisfeita em Sua Visão.

 

Eu não peço uma condição elevada,

Favoreça-me, mas não nisso.

E cedo ou tarde, então, me traduza, A Sua Glória Eterna!

 

Oh! Por um Coração para Louvar meu Deus!

 

OH! Por um coração para louvar meu Deus,

Um coração de pecados liberto,

Um coração que bebe sempre de Seu Sangue,

Tão abundantemente derramado por mim.

 

Um submisso, humilde e contrito coração,

Acreditando, de forma verdadeira e clara,

Que nem a vida e nem a morte podem me separar,

Daquele que habita dentro de mim.

 

Um coração renovado em cada pensamento,

E repleto do amor divino,

Perfeito, reto, puro e bom,

Uma cópia, Senhor, do Seu coração.

 

Dá-me ser conforme a Sua natureza, gracioso Senhor,

Venho prontamente pedir.

Escreva seu novo nome sobre o meu coração,

Seu melhor nome, o nome do Seu Amor.

                           CharlesWesley

 

 

 

Nenhum Líder Protestante no século XVIII fez melhor uso da mídia que John Wesley

                                                                                                              Charles Yrigoyen, Jr.                                                                                                                        

 

 

 

IMPRESSIONANTE:- Milhares de cópias do influente jornal wesleyano, “The Arminian Magazine”, durante anos a voz oficial do metodismo, foram impressas em uma máquina como a retratada.

 

         Se John Wesley tivesse apenas cavalgado 250 milhas através da Inglaterra, Escócia e Irlanda, pregando 42 mil sermões ao longo do caminho, sua reputação como um dos mais enérgicos cristãos da história já estaria garantida. Mas ele ainda, de alguma forma, arrumou tempo, ou melhor, fez tempo – para publicar centenas de livros, tratados, panfletos e um periódico.

         Wesley estava convencido de que os cristãos deviam ter conhecimento sobre sua fé e sobre o mundo em que viviam. Portanto, eles deviam ler constantemente, assim como ele fazia. E ele ficava feliz em fornecer o material.

         Aproximadamente 500 títulos são atribuídos aos dois irmãos Wesley, a maioria escrita por John. Eles podem ser agrupados em 4 categorias principais: apologéticos, desenvolvimento espiritual, exortação e instrução.

 

Sua Versão Da História

         Os metodistas sofreram críticas constantes de pessoas que acreditavam em falsos relatos sobre suas doutrinas e práticas. Wesley defendeu a si mesmo e ao seu movimento com a mídia, procurando tanto desfazer mal entendidos, quanto gerar simpatia.

         Seu panfleto “Cristianismo Moderno: um exemplo em Wednesbury” (Modern Christianity: Exemplified at Wednesbury) mostra arrepiantes registros, como esse de Mary Turner, sobre a perseguição a Metodistas em uma pequena cidade do condado de Stafford:

         “Na terça – feira gorda, depois que duas grandes levas de pessoas tinham passado, vieram quatro ou cinco homens ao meu vizinho, Jonas Turner. Eu e outra mulher os seguimos, para ver o que fariam. Eles primeiro quebraram as janelas, depois arrombaram a porta e entraram na casa. Logo depois que entraram, eles lançaram fora uma caixa pela janela da sala e juraram que se alguém a tocasse seria morto. Logo em seguida, jogaram fora uma Bíblia e um deles veio para fora e, com grande furor, despedaçou-a com seu machado”.

         An Earnest Appeal to Men of Reason and Religion” (1743) e “A Further Appeal to Men of Reason and Religion” (1745) são exemplos clássicos da tentativa de Wesley de explicar sua mensagem e o lugar do metodismo na vida da Inglaterra.

         O diário público de Wesley, o Journal, que cobre o período de 1735 a 1790, descreve suas idéias e ações na formação do movimento metodista. Outras publicações, como “The Character of a Further Methodist”, “The Principles of Methodism Further Explained” “A Plain Account of the People Called Methodists”, contêm a história do ministério de Wesley e do porquê era necessário que o movimento metodista nascesse.

          

Guias Para a Vida

         Além da conversão, nada era mais importante para Wesley do que propiciar que os crentes alcançassem a santificação, que ele chamava de “santidade de coração e vida”. Conseqüentemente, muitos dos seus escritos almejavam nutrir os metodistas em uma vida santa.

         Uma vez que Wesley estava convencido de que a Bíblia era o livro mais importante para os cristãos, ele publicou dois grandes comentários bíblicos. Suas “Explanatory Notes Upon the New Testament” (anotações explanatórias sobre o Novo Testamento) foram publicadas em 1755. Elas continham não apenas comentários sobre todos os versículos do Novo Testamento, mas a própria tradução que Wesley fez do texto bíblico em grego para o Inglês.

         O enorme “Explanatory Notes Upon the Old Testament”, seguiu-se, em 1755-66. Entre 1749n e 1755, Wesley editou e publicou “A Christian Library”, uma série de 50 volumes que incluiu seleções de patriarcas da Igreja, como Clemente e Policarpo, e de escritores de sua época. Ele acreditava que os cristãos deviam ser instruídos, inspirados e encorajados por meio da leitura dos textos que selecionava.

         Os metodistas não apenas liam a teologia, mas também a cantavam, geralmente repetindo as palavras de seu mais famoso escritor de hinos, Charles Wesley. O hinário mais ambicioso de Wesley, “A Collection of Hymns for the Use of People Called Methodists” contém 525 hinos que refletem integralmente a teologia dos dois irmãos.

         Consciente das diferentes necessidades do movimento em expansão, Wesley produziu algumas publicações para “nichos” específicos, como: para os americanos – “The Sunday Service of the Methodists in North América”, baseado no “Book of Common Prayer” da Igreja Anglicans; para prisioneiros – “Prayers for Condemned Malefactors”; e para os jovens metodistas – “Prayer for the Children”.

         Os trabalhos diferem mais em conteúdo do eu em estilo ou tonalidade e mesmo os mais jovens eram instruídos a orarem linhas como: “Oh, ensina-me a verdadeira sabedoria, e deixa que a Lei do Senhor seja para mim como ouro e prata, e deixa que eu me regozije inteiramente nela. Oh, deixa-me ser um devoto a Deus desde minha infância. Afasta o meu coração de todo o amor pelo mundo, ou por riquezas ou por qualquer outra coisa criada, e enche-me com o amor de Deus”.

         Como Wesley acreditava que a vida cristã era uma vida de disciplina, ele dava instruções detalhadas, como “The Nature, Design and General Rules of the United Societies”, o qual contém os fundamentos da vida metodista. O “The Arminian Magazine”, um jornal mensal que foi editado pela primeira vez em janeiro de 1778, ofereceu ainda mais pensamentos sobre doutrina e disciplina, além de biografias espiritualmente enriquecedoras, testemunhos e poesia.

 

 

Amolde-se, Senão...

 

Wesley regularmente exortava seus leitores a prestarem atenção ao chamado de Deus para reformar suas vidas, a Igreja e a nação, completando, assim, o que ele via como propósito de Deus para o movimento metodista: “reformar a nação, particularmente a Igreja; e espalhar a santidade bíblica sobre a terra”.

Alguns de seus livros urgiam uma mudança na vida pessoal, eclesial ou nacional. “Thoughts upon Slavery” (1774) condenava a prática da escravidão e defendia que aqueles que estivessem engajados no tráfico de escravos o abandonassem em nome de Deus e dos que eram explorados. “A Calm Address to Our American Colonies” (1775) lembrava os colonos de sua lealdade ao governo britânico e os exortava a desistirem da idéia da revolução.

 

DURA MULTIDÃO:- No começo de seu ministério itinerante, Wesley enfrentou muita oposição, como quando diante dessa multidão em Wednesbury, retratada acima. Em abril de 1740, ele estava falando sobre Atos 23 para uma audiência em Bristol, quando “a rua inteira ficou cheia de pessoas gritando, amaldiçoando e xingando, prontas para arrancar o solo com violência”. O juiz da cidade (provavelmente uma figura como o homem com o sino e o cajado acima) finalmente restaurou a ordem. Os metodistas acostumaram-se a relatar essas hostilidades para defender a si mesmos e também para atrair simpatia.

 

 

 

PROTESTO PATRIÓTICO:- Ignorando completamente a advertência de Wesley, em seu “Calm Address to Our American Colonies”, para “temer a Deus e honrar ao Rei”, os nova-iorquinos derrubaram uma estátua de George III, em julho de 1776. A estátua foi derretida e transformada em munição.

 

 

         Wesley também escreveu palavras a vários grupos de pessoas, incluindo “sabbath-breakers”, contrabandistas e alcoólatras, admoestando-os a mudarem suas vidas. Às vezes, ele era bem direto, como no tratado “A Word to a Drunkard”: “O que torna o homem diferente de uma besta? Não é principalmente a razão e o entendimento? Mas você lança fora toda a sua razão. Você se despe de seu entendimento. Você faz tudo o que pode para se tornar como uma besta; não um tolo, não um louco somente, mas um canalha, um pobre e obsceno canalha. Vá chafurdar com eles na lama. Vá, continue bebendo, deixe sua nudez ser descoberta e, vergonhosamente, lançada fora pela Glória de Deus”.

 

O PREGADOR QUE ENSINAVA

 

Questões teológicas e doutrinárias permeiam todas as publicações de Wesley.

Algumas de suas publicações, contudo, tinham algum foco doutrinário específico. As mais notáveis entre elas são os sues Sermões. Wesley publicou a primeira coletânea de seus sermões em 1746. No prefácio da primeira edição, ele afirmou que aqueles sermões continham a essência de sua pregação e ensino.

Eles eram tratados teológicos a serem lidos e estudados por pregadores e leigos como guia para a proclamação e vida dos metodistas. Ele publicou 151 sermões no total. Algumas das publicações de Wesley abordavam questões doutrinárias específicas. Os exemplos incluem “The Doctrine of Original Sin: According to Scriptures, Reason and Experience”, “A Treatise on Baptism”e o muito importante “Plain Account of Christian Perfection”.

Wesley também publicou pensamentos sobre um espectro muito maior de assuntos – um esforço que produziu alguns de seus mais incomuns e, às vezes, divertidos, trabalhos.

Wesley publicou gramáticas de Inglês, Francês, Latim, Grego e Hebraico, além de um dicionário de Inglês. Ele também publicou um volume filosófico intitulado “A Compendium of Logic”.

Talvez, o mais famoso dos livros instrutivos de Wesley, seja o “Primitive Physic”, que contém seus conselhos sobre saúde e cura de doenças. Algumas de suas idéias eram notoriamente modernas, mas maioria era escandalosa.

Para curar calvície, ele recomendou: “esfregue a cabeça de manhã e à noite com cebola, até ficar vermelha; e então esfregue com mel. Ou, ainda, eletrifique a região diariamente”.

Para resfriados, o Dr. Wesley prescrevia: “descasque a laranja, deixando-a bem fina, enrole-a de dentro para fora e empurre um rolo em cada narina”.

A popularidade da profícua obra de Wesley teve um resultado inesperado: dinheiro. “Alguns deles alcançaram tamanha vendagem, que eu jamais poderia imaginar, ele disse, e dessa forma eu me tornei, inconscientemente, rico”. Era de sua natureza, contudo, dar todas as suas riquezas,deixando seus fundos para seus contemporâneos. Para as futuras gerações de cristãos, deixou a riqueza de seus escritos.

 

 

 

A Equipe de Liderança                    

Esses primeiros convertidos suportaram, fortaleceram e espalharam o movimento metodista – quer John Wesley concordasse ou não com eles.

 

GEORGE WHITEFIELD (1714 – 1770)

 

O porta-voz do metodismo

 

“O que esse menino quer dizer? Prithee segure a sua língua”. Assim a mãe de George Whitefield, uma arrumadeira em Gloucester, recebeu o anúncio do filho de que, enquanto ele corria e entregava recados para ela, uma impressão muito forte de que ele deveria pregar havia crescido em seu coração. De qualquer modo, Whitefield seguiu seu chamado e, depois, veio a ter o apoio integral de sua mãe. Ele começou a desenvolver suas habilidades de pregação desde cedo. Na escola ele tinhas um enorme interesse em atuar em peças, de um modo geral. Embora tenha abandonado o teatro quando mais velho, seus diários demonstraram que sua experiência teatral ajudou-o a desenvolver seus vastos talentos de oratória, os quais permitiram que ele pregasse com desenvoltura para multidões de até 10 mil pessoas durante o Grande Avivamento.

         Por meio de um amigo influente, a mãe de Whitefield conseguiu para o filho de um arranjo para estudar em Oxford, com a contrapartida de trabalhar para a Universidade. Mas, antes que ele deixasse Gloucester, um amigo chamado Gabriel Harris, o dono da melhor livraria da cidade, mostrou-lhe um novo livro, a segunda edição do “A Serious Call to a Devout and Holy Life”, de William Law.

         Ele olhou para o livro rapidamente naquele dia, mas leu essas palavras antes de devolvê-lo ao amigo: “Ele desta forma, é o homem devotado, que não vive mais segundo sua própria vontade, ou no espírito e no caminho do mundo, mas somente na vontade de Deus”.  Essas palavras acenderam uma nova chama e despertaram um novo zelo em Whitefield.

         Em Oxford, Charles Wesley introduziu Whitefield ao Clube Santo e o apresentou ao seu irmão John. Ao conhecer Whitefield, Charles registrou que ele era um “jovem modesto e pensativo que meditava sozinho”. Contudo, Charles rapidamente veio a gostar do jovem rapaz e, mais tarde, escreveria sobre aquele primeiro encontro: “eu o vi, eu o amei e eu o abracei m meu coração”.

         Depois que os Wesley foram para a América, Whitefield assumiu a liderança do Clube Santo.

Deste grupo, Whitefield escreveu mais tarde: “Nunca houve pessoas, creio eu, que desejassem mais ardentemente entrar pela porta estreita... Eles estavam mortos para o mundo e desejando ser contados com o estrume e a escória de todas as coisas, pois assim eles poderiam vencer com Cristo”.

         Em 1735, o mesmo ano em que se tornou membro pleno do Clube Santo, Whitefield experimentou “um novo nascimento” espiritual, três anos antes da experiência dos irmãos Wesley em Aldersgate. Ele foi ordenado diácono em Gloucester em junho de 1736 e pregou o seu primeiro sermão uma semana depois.

         Com sua voz retumbante e sua paixão sem limites, Whitefield logo passou a buscar formas de expandir seu ministério para além das paredes da Igreja Anglicana.

         Ele começou a pregar ao ar livre. Embora não tenha sido o primeiro a tentar isso, a mensagem provocante e habilidosa de Whitefield logo o tornou famoso.

         John Newton registrou “O Senhor deu a ele uma forma de pregar que era peculiarmente sua. Ele não a copiou de ninguém e eu nunca encontrei ninguém que pudesse imitá-lo com sucesso”.

         No início, John Wesley, que tinha retornado dos EE.UU, condenou a abordagem do Whitefield, como uma “loucura”. Mas, Whitefield convenceu Wesley de que o caminho do Evangelho era ir para “fora, nas estradas e fronteiras”. Logo, Wesley estaria copiando Whitefield, que, por sua vez, “não tinha copiado ninguém”.

         A experiência de Wesley nos EE.UU. tinha sido tão desencorajadora que, quando Whitefield indicou que tinha vontade de pregar lá, Wesley o aconselhou a não ir. Whitefield polidamente ignorou seu aviso e velejou para a Geórgia em 1739.

         A pregação de Whitefield espalhou a mensagem do Evangelho como “fogo na terra seca das colônias”, e até mesmo Benjamin Franklin (que certa vez estudou a forte voz de Whitefield enquanto ele pregava) estava entre os ouvintes freqüentes de Whitefield.

         Logo Whitefield teria discussões com Wesley sobre pontos doutrinários. Whitefield era um firme defensor, altamente erudito, do Calvinismo, e ele entendeu que a ênfase de Wesley no livre arbítrio, era um eco do Pelagianismo, herético.

         Os irmãos Wesley acusaram Whitefield de adotar uma teologia que excluía muitos que poderiam vir a se converter. Em sua pregação, contudo, Whitefield não tinha nada de excludente. Na Filadélfia, ele pregou: “Quem são as pessoas que estão no céu? Algum episcopalista? Não. Algum presbiteriano? Não. Algum independente ou dissidente?... Algum metodista? Não, não, não! Quem são aqueles que estão no céu, então?... Todos os que são cristãos, crentes em Cristo...”.

         Deus nos ajuda a todos a esquecermos que tínhamos nomes e a nos tornarmos cristãos em espírito e em “verdade”!

         Por meio da mediação de um amigo, Whitefield e os Wesley se reconciliariam mais tarde, apesar de sua teologia nunca ter ser misturado completamente.

         Quando morreu, o legado de Whitefield foram seus 33 anos de ministério, mais de 15 mil sermões e uma audiência que normalmente incluía milhares de pessoas. William Cowper escreveu esse tributo a um dos verdadeiros fundadores do Evangelicismo: “Ele amou o mundo que o odiou; as lágrimas que derramou sobre sua Bíblia eram sinceras. Assaltado pelo escândalo e pela língua ferina, sua única resposta era uma vida inculpável”.                           

Charles W. Christian

 

 

 

Adam Clarke (1760-1832)

A Estrela da Segunda Geração

 

      A força de qualquer movimento é testada quando seus fundadores morrem, e o metodismo passou no teste com Adam Carke.  Ele veio de uma família pobre e recebeu sua educação de seu pai. Não tinha expectativa de um dia alcançar sucesso intelectual, até que um professor visitante disse a seu pai: “Esse menino ainda vai ser um erudito”. Este encontro, juntamente com sua experiência de conversão, redefiniriam a vida de Clarke.

         Ele se converteu ao metodismo em 1789, ouvindo a pregação de Thomas Barber.  A família inteira o ouvia e o adolescente Adam ficou tão absorvido pela pregação que andava até a casa de reuniões quatro vezes por semana, enquanto Barber esteve na cidade.

         Mais tarde, em um campo, Clarke ajoelhou-se e buscou a Deus. Ele foi finalmente confortado com o que descreveu como “uma repentina transição das trevas para a luz”. Logo, ele começou a viajar de vila em vila, compartilhando sua fé.

         Wesley convidou Clarke a vir para a Inglaterra e treinar para o ministério, ao que seus pais relutantemente consentiram. Após uma breve estada em Bristol, Clarke foi convocado a encontrar Wesley, que perguntou-lhe: “Bem, irmão Clarke, você deseja devotar-se inteiramente ao trabalho de Deus?” Wesley então o ordenou e o enviou para a Inglaterra e treinar para o ministério, ao que seus pais relutantemente consentiram. Após uma breve estada em Bristol, Clarke foi convocado a encontrar Wesley, que lhe pergunto: “Bem, irmão Clarke, você deseja se devotar inteiramente ao trabalho de Deus”.

         Clarke respondeu: “Senhor, eu quero fazer e ser o que agrada a Deus”. Wesley então o enviou e o ordenou e o enviou para a primeira de suas muitas nomeações, como pregador de circuito. Pelos próximos 52 anos, Clarke pregou cerca de 15 mil sermões e escreveu muitos trabalhos respeitados, inclusive um comentário bíblico de oito volumes, que ficou como leitura obrigatória de clérigos metodistas e wesleyanos até meados do século XX.

         Embora Clarke não tenha tido educação formal em uma Universidade, ele era fluente em 20 línguas e serviu como Presidente da Conferência Wesleyana por três mandatos, fato sem precedentes naquela época. Os escritos de Clarke contribuíram muito para espalhar a doutrina da santificação no Movimento de Santificação Americano (American Holiness), no final do século XIX.

Ele morreu de cólera em 1832, tendo deixado como legado um movimento forte e organizado, que certamente teria desmoronado após a morte dos Wesley, não fossem os seus esforços.

                                                                                                              Charles W. Christian

 

 

 

THOMAS MAXFIELD

(1720-1785)

O Pioneiro dos Pregadores Leigos

 

         Quando John Wesley recebeu uma carta dizendo que seu assistente leigo, Thomas Maxfield, tinha estado pregando, ficou furioso e viajou de Bristol a Londres para confrontá-lo. Mas, apesar de Maxfield ter sido uma fonte de agitação para Wesley, ele tinha colocado em movimento um diferencial chave dos primórdios do metodismo: a pregação dos leigos.

         Maxfield veio à fé em 1739, sob o ministério de John Wesley e George Whitefield. Logo Wesley fez de Maxfield o líder leigo em Londres, na Fundição, uma fábrica de canhões transformada em casa de reuniões. Seus deveres incluíam explicar as Escrituras e orar – mas não pregar.

         Então, em 1741, sem a sanção de Wesley ou de qualquer outro oficial da Igreja, Maxfield começou a pregar. Wesley considerou esse ato uma afronta aos clérigos ordenados e ficou determinado a examinar o problema. Antes de confrontar Maxfield, Wesley chamou sua mãe, Susanna, que tinha ouvido a pregação de Maxfield. Susanna não era uma das proponentes da pregação leiga, mas, disse a seu filho, “tome cuidado”, pois, acrescentou, “ele certamente tem um chamado para pregar, tanto quanto como você”.

         Amolecido, Wesley foi a um sermão de Maxfield. Este era um excelente orador e Wesley convenceu-se de seu dom. O pregador Henry Morre relembrou que “Wesley curvou-se diante da força da verdade e pôde apenas dizer – ‘É o SENHOR’- deixe-o fazer o que lhe parecia bem”. 

         Uma vez aberta esta porta, muitos outros pregadores leigos se seguiram. A tensão entre Wesley e Maxfield, contudo, não cessaria. Em 1763, Maxfield juntou-se a uma seita entusiástica e clamou que tinha alcançado a perfeição – uma forma extrema da doutrina de Wesley.

         Vendo seus ensinos mal interpretados, Wesley tentou confrontar Maxfield, mas ele se recusou a ouvir. Em uma carta aberta, “A Vindication” (Uma Justificativa), Maxfield acusou Wesley de espalhar falsos rumores e meias verdades sobre seu caráter e suas crenças.

         Ele também negou veementemente que roubava ovelhas de Wesley. Maxfield disse que o oposto era verdade, que os “metodistas detem um monte, se não centenas dos meus”. Ele continuou: “ainda que eles tenham me colocado de lado, sem cerimônia... e esta a única recompensa que eu recebo de suas mãos pelos muitos anos de trabalho?”.

         Mais tarde, Maxfield fundou uma capela independente, na qual congregavam basicamente dissidentes dos metodistas. A divergência entre ele e Wesley permaneceu, mas houve um momento tocante de redenção, anos depois. Wesley chamou Maxfield, segundo um historiador, tendo o encontrado “afundado na velhice, paralisado e caindo de joelhos, apelando por uma benção para seus últimos dias e orações para ele em sua capela”.

                                                                                                                      Robert Schultz

 

 

THOMAS COKE (1747 – 1814)

Rebelde Com Uma Causa

 

Thomas Coke tinha uma paixão por almas perdidas. Ele, quase que sozinho, foi o responsável por espalhar o metodismo no mundo de fala inglesa.”Se Coke morresse e alguém sussurrasse em seu ouvido a palavra missão, disse seu amigo Jonathan Crowther, “ele se levantaria para a vida novamente”.

Em 1772, dois anos após ser ordenado clérigo anglicano, Coke teve uma experiência de conversão sob o ministério do dissidente metodista Thomas Maxfield.

Coke voltou a sua paróquia em South Petherton, pregando o seu recém descoberto Evangelho para uma congregação não muito receptiva.

Dentro de um ano, seus paroquianos irados, o dispensaram. Ele imediatamente se juntou aos metodistas e se tornou um dos mais confiáveis – e também criador de problemas - dos assessores de Wesley.

Coke gostava de assumir riscos e achava que Wesley hesitava muito. Para Coke, as almas perdidas não poderiam esperar. Wesley achava que Coke era muito impulsivo e agia sem pensar. Ele e os outros temiam que a paixão irresponsável de Coke iria destruir o movimento metodista.

Eles temiam também a sua ambição e imaginavam que ele almejava ser o sucessor de Wesley. Coke tinha uma tendência a assumir mais autoridade do que lhe era concedida.

A discordância mais profunda surgiu quando Coke começou a se referir a Wesley, ele mesmo e ao líder metodista americano Francis Asbury como bispos, ao invés de superintendentes. Na pratica,o “bispo” de Coke nada mais era do que um superintendente, mas o titulo dava uma conotação de autoridade maior do que Wesley queria.

Os metodistas britânicos ficaram assombrados. Wesley ficou lívido. “Os homens podem me chamar de patife, tolo, malandro, canalha, e eu ainda ficaria contente”, ele escreveu, “mas eles jamais deverão, com o meu  consentimento, chamar- me de Bispo!” Quando Coke e Asbury fundaram a escola “Cokesbury College” (dando seus nomes a ela), a situação piorou. 

Depois do sucesso na América, Coke estendeu seu olhar par terras mais exóticas. Mas, a sua proposta de enviar missionários para a África e para a Índia, teve uma acolhida apenas morna pelos metodistas da Inglaterra. Wesley concordou apenas em principio.

O fervor de Coke, entretanto, permaneceu inabalável. Ele ate buscou apoio nas igrejas batistas. Após anos de rogos de Coke e sacrifícios financeiros, as sociedades metodistas finalmente apoiaram uma expedição para a África. Ainda que o desejo maior de Coke fosse pela Índia. “Eu  agora estou morto para a Europa e vivo para a Índia” , ele disse. “Deus me disse para eu ir para o Ceilão”.

Eu prefiro ser lançado nu na costa do Ceilão, sem roupas, sem amigos, do que não ir para lá”. Aos prantos, um Coke envelhecido finalmente persuadiu os metodistas a permitirem uma missão para a Índia. Atendendo ao chamado de Deus, ele acompanhou a expedição, mas morreu no caminho. Seu corpo foi encontrado ajoelhado, em posição de oração, na sua cabine no navio.

                                                                                                             Robert Schultz                                                       

 

 

 

   

JOHN FLETCHER - (1729-1785)

MARY BOSANQUETE FLETCHER (1739-1815)

 

Um Sucessor Em Potencial e Uma Esposa De Sucesso

 

 

Ao contrario de seu amigo, John Wesley, John Fletcher nunca pegou a estrada como um evangelista itinerante. Como um vigário paroquiano, ele realizou mais pela Teologia Metodista do que o próprio Wesley.

Na obra “Checks to Antinomianism”, Fletcher entrou no debate Calvinista –Arminianos, argumentando por uma terceira via: Fé com obras. “Uma vez estivemos sob o perigo imediato de sermos quebrados pelas obras sem fé”, ele escreveu. “Agora somos ameaçados de destruição pela fé sem obras”.

Rio na juventude, Fletcher escolheu a parca renda de vigário em uma pobre cidade fabril. Lá ele pregou por 28 anos, esforçando-se por atingir o povo da cidade, segundo Wesley, “em cada esquina, usando de todos os meios, públicos e privados, cedo e tarde”. Essa persistência nem sempre era apreciada. Uma vez, Fletcher escapou da morte nas mãos de uma multidão, apenas porque seus paroquianos o chamaram de repente para realizar um funeral.

Esse fervor encontrou sua alma gêmea em Mary Bosanquet, uma rica mulher que, como ele, escolheu a pobreza do ministério. “Se eu soubesse como achar os metodistas”, ela disse antes de se juntar `a Igreja, “eu jogaria fora todas as minhas coisas boas e correria pelo fogo com eles. Se um dia eu for senhora de mim, vou passar metade do dia trabalhando pelos pobres e a outra metade em oração”.

Mary, de fato, atirou-se ao serviço cristão, conduzindo um orfanato durante 18 anos. Fletcher escreveu a Wesley sobre ela: “Obrigado por sua dica sobre como exemplificar o amor de Cristo por sua Igreja... Eu posso dizer a você que minha esposa e bem melhor para mim do que a Igreja e para Cristo”.  

Ambos, marido e mulher, pregavam com paixão. Sobre Mary, Wesley escreveu: “suas palavras são como fogo, levando tanto luz quanto calor aos corações de todos que as ouviam”. E Wesley demonstrou a mesma admiração pela pregação de Fletcher, dizendo que se ele houvesse se tornado um pregador itinerante, “teria feito mais bem do que qualquer outro homem na Inglaterra”.

Mas o coração de Fletcher pertencia ao seu primeiro rebanho, e ele viveu e morreu cuidando dele. A febre que o matou foi contraída enquanto ele cuidava dos enfermos.

Logo após cair doente, ele pregou: “O que vocês temem? Vocês têm medo de pegar a febre e morrer? Oh! Não temam isso! Que honra e morrer a serviço do Mestre”!

Wesley teve esperança de que Fletcher viesse a ser o seu sucessor, mas ele veio a viver seis anos mais do que o jovem homem.

                                                                                                                 Steven Gertz

 

 

 

 

SEMENTES NO JARDIM

Entrevista com TOM ODEN

 

A busca dos metodistas por santidade ramificou, em 200 anos, em surpreendentes direções

 

 

A historia dos irmãos Wesley não acabou com as suas mortes. A sua influencia continuou, não apenas nas denominações metodistas (as mais proeminentes a Igreja Metodista Unida, os Metodistas livres, a Igreja Metodista Episcopal Africana, os Nazarenos e os Wesleyanos), as quais totalizam cerca de 25 milhões de membros ao redor do mundo, mas também em incontáveis vidas tocadas pelos hospitais, escolas, orfanatos, ministérios carcerários e outras expressões tangíveis da santidade metodista.

Para traçar o legado dos Wesley no metodismo atual, a Christian History entrevistou Tom Oden, um metodista de nascença e professor de Teologia na Drew University, fundada por metodistas, em Madison, New Jersey.

 

Em que medida John e Charles Wesley foram produtos de seu tempo?

 

Os dois eram profundamente enraizados no Anglicanismo (herança de seu pai) e na rigorosa piedade dos Puritanos (herança de sua mãe).

Ambos quiseram experimentar a salvação em sua plenitude, mas o mundo em que viveram não encorajava essa busca interior e exterior da santidade. A Igreja Anglicana, no principio do século XVIII, estava em estado de auto-realização e demonstrava pouca energia na busca de se viver o Evangelho.

A Universidade de Oxford, enquanto eles estiveram lá, estava passando por uma espécie de re-despertar de atenção a fontes cristas antigas – escritos patristicos, os pais da Igreja Ocidental, os monges do deserto – que se centravam na busca de uma vida santa. Mais do que ver isso como um exercício acadêmico, os Wesley assumiram como desafio pessoal.

Alem disso, John Wesley leu William Law, Jeremy Taylor e outros autores que buscavam a “perfeição crista”.

No Clube Santo, ele fundou o que poderíamos chamar de um grupo de apoio para aqueles que queriam buscar o viver em santidade – não apenas piedade privada, mas atos públicos de caridade e serviço. John Wesley nunca viu a si mesmo como um inovador. Ele estava apenas levando a serio aquilo que a Igreja dizia acreditar. Ele estava apenas atualizando a tradição.    

 

Como o movimento mudou  apos a morte de seus fundadores?

 

O movimento metodista rapidamente tornou-se identificado com o reavivamento da tradição de santidade e o movimento de reuniões em acampamentos, as quais focavam na pregação do Evangelho e na busca da santidade pela Graça. Esperava-se que o Espírito Santo entrasse no coração de uma pessoa, transformando sua vida tanto na dimensão publica quanto na particular.

 

 

Ao mesmo tempo, os metodistas estavam exercendo ministérios junto aos órfãos e prisioneiros, fazendo empréstimos e, em 1840, estabelecendo as bases para missões mundiais. Naquele ano, a Igreja Metodista Episcopal, então com 580.098 membros, era a maior denominação na América. A ênfase na santidade interior e exterior continuou ate o final do século XIX.

Na virada para o século XX, o metodismo, como muitas outras denominações, começou a adaptar-se a uma visão progressista e liberal de mudança social. O idealismo filosófico e o movimento de Evangelização passaram por um efeito de secularização. Muitos bispos metodistas foram educados na Boston University, tendo sido influenciados pelo “personalismo de Boston”, o qual levou a uma visão mais humanista entre os lideres denominacionais, mesmo que as bases permanecessem pietistas.

 

No seu sermão, “As vinhas do Senhor”, Wesley descreveu o vinhedo do Senhor como crescendo com ervas daninhas. No final de sua vida, ele já tinha perdido as esperanças e sentia que seu movimento se tornaria outra instituição.

 

O que causou as divisões do movimento nos Estados Unidos?

 

         Durante a Revolução Americana, os pastores metodistas foram identificados com a Revolução. Muitos clérigos anglicanos partiram para o Canadá ou de volta para a Inglaterra. Assim, os metodistas nos Estados Unidos romperam claramente com a Igreja Anglicana.

         Wesley viu isso acontecer e relutantemente deu sua benção. A Igreja Anglicana se dissolveu na América do Norte, deixando, em seu lugar, a Igreja metodista Episcopal. As sociedades metodistas na Irlanda e na Inglaterra não romperam tão rápido, mas, após a morte de John Wesley, elas viriam também a se separar da Igreja Anglicana.

         Em 1816, formou-se a Igreja Metodista Episcopal Africana (African Methodist Episcopal Church), com o apoio de Francis Asbury, que consagrou a Richard Allen como o primeiro bispo da nova Igreja.

         Em 1843, surgiu a Igreja Metodista Wesleyana, como resultado de um grupo dissidente que queria protestar contra a tolerância da escravidão pela Igreja metodista Episcopal.

         Um ano depois, em grande parte devido à mesma questão, a Igreja Episcopal dividiu-se na Igreja metodista e na Igreja Metodista Episcopal do Sul. A Southern Methodist University refletiu essa divisão em seu nome. A contrapartida do norte foram escolas como Syracuse, Northwestern, Drew e Boston University.

         A Igreja Metodista Livre formou-se em 1860, sob discussões quanto a bancos livres (não alugados), liberdade para nos escravos e liberdade para a adoração. Em 1939, as Igrejas do norte e do sul foram reunidas como Igreja Metodista e, em 1968, esse grupo uniu-se aos Irmãos Evangélicos Unidos, para formar a Igreja metodista Unida.

 

De que forma a Igreja Metodista de hoje e uma continuação do movimento dos Wesley?

         Hoje há um modesto, mas significativo, re-enfoque na influencia dos Wesley.  

         Na Conferencia Geral Metodista de 1988, os padrões doutrinários foram definidos mais precisamente. Os sermões de Wesley, suas notas explanatórias sobre o Novo Testamento e os seus 25 artigos de religião foram reafirmados como fundamentos.

         Claro que grupos diferentes enfatizam coisas diferentes. Os liberais enfatizam as preocupações sociais de Wesley: seu combate`a escravidão e sua defesa dos pobres. Os conservadores enfocam nos temas da santificação, que tornaram viáveis as ações sociais.

 

O que John Wesley não reconheceria no metodismo atual?

         A grande burocracia da igreja Metodista Unida. Eu digo isso porque John Wesley ficou claramente consternado quando Thomas Coke e Francis Asbury passaram a se referir a si mesmos como “bispos”. O metodismo de Wesley estava focado no ensino, na responsabilidade, atos de serviço, cuidado pelos pobres, órfãos e prisioneiros e outros em necessidade.

         No seu sermão, “As vinhas do Senhor”, Wesley descreveu o vinhedo do Senhor como crescendo com ervas daninhas. No final de sua vida, ele já tinha perdido as esperanças e sentia que seu movimento se tornaria outra instituição.

         Ele também não reconheceria o vasto e independente ramo executivo da Igreja Metodista Unida, que supostamente leva a efeito a vontade da Conferencia Geral, mas que agora conduz seu próprio caminho. Por causa dos enormes fundos acumulados ao longo dos anos, as sedes não estão mais estritamente sob a responsabilidade da vontade das congregações.

 

Nos Primórdios do metodismo, Thomas Coke defendeu as missões globais. O que aconteceu com aquela visão?

 

         Na Igreja Metodista Unida, a Junta Geral de Ministérios Globais tem U$ 500 milhões em investimentos em investimentos. Se você falar com os membros da Junta, eles vão mencionar suas preocupações com o evangelismo e com a pregação, ainda que o percentual de missionários focados nessa área seja pequeno.

         A verdadeira energia esta nos projetos de ação social: escavando poços, construindo escolas, hospitais e afins.

         Os fundos são grandes o suficiente para que a Junta não precise ficar atenta `as preferências das congregações ou mesmo dos bispos. Nos anos recentes, a Junta tem sido criticada por sua agenda antiamericana, anticapitalista e pro – homossexualismo.

         Na América Central, ela foi claramente identificada com a Teologia da Libertação e visivelmente apoiou o movimento sandinista na Nicarágua.Recentemente, uma organização missionária alternativa, chamada Missionary Society, foi estabelecida, e este grupo já esta enviando mais pastores ao estrangeiro do que a Junta Geral de Ministérios Globais tem US$ 500 milhões em investimentos. Se você falar com os membros da Junta, eles vão mencionar suas preocupações com o evangelismo e com a pregação, ainda que o percentual de missionários focados nessa área seja pequeno. A verdadeira energia esta nos projetos de ação social – escavando poços, construindo escolas, hospitais e afins.

         Os fundos são grandes o suficiente para que a Junta não precise estar atenta `as preferências das congregações ou mesmo dos bispos. Nos anos recentes, a Junta tem sido criticada por sua agenda anti-americana, anti-capitalista e pro-homossexualismo. Na América central ela foi claramente identificada com a Teologia da Libertação e visivelmente apoiou o movimento sandinista na Nicarágua.

         Recentemente, uma organização missionária alternativa, chamada Missionary Society, foi estabelecida, e este grupo já esta enviando mais pastores ao estrangeiro do que a Junta Geral de Ministérios Globais.

 

 

                     

Igreja no Monte:- ao largo do Capitolio, esta o prédio da Igreja Metodista Unida, acabado em 1923 a um custo de US$ 650.000. Construído por lideres que defendiam “a retidão cívica como o verdadeiro fundamento do progresso saudável”, o prédio abrigou ativistas de causas diversas, como os que advogaram a Lei Seca, os direitos civis, os protestos contra a guerra e direitos reprodutivos.

 

 

Como o metodismo Mundial e diferente do Metodismo americano?

 

            A África e na Ásia, especialmente, o metodismo e mais centrado, doutrinariamente, na salvação pela Graça mediante a fé e na busca da santidade. Mesmo no metodismo britânico, o foco doutrinário e mais forte – os hinos wesleyanos e a piedade são mais proeminentes.

         E o metodismo vem sendo muito associado com o Partido Trabalhista (Margareth Thatcher – uma metodista e membro do Partido Conservador, e uma notável exceção). Na Índia, em 1870, um bispo metodista, William Taylor, desenvolveu uma Igreja auto-sustentada e autodeterminada. Esse conceito de Igreja, independente dos recursos estrangeiros, eventualmente chegou `a China e desenvolveu-se, tornando-se o que e hoje conhecido como as “Three-Self Church”.

 

 

Qual e a relação entre o metodismo, santidade e os movimentos Pentecostais e carismáticos?

Ate 1880, o movimento de santificação era essencialmente baseado nos fortes ensinamentos de Wesley sobre santidade. A pregação da santidade também afetou os presbiterianos, os congregacionais e os quakers. Com efeito, foi um movimento ecumênico de reavivamento.

         O movimento se dividiu no final do século XIX, quando alguns argumentavam pela santificação completa como uma definitiva e distinta “segunda bênção”, subseqüente a conversão. Isso produziu a Igreja dos Nazarenos. Os pentecostais compartilharam dessa ênfase, mas adicionaram um foco na iluminação.

         O movimento carismático influiu o metodismo tanto quanto o anglicanismo e o catolicismo. A maioria dos carismáticos não pensaria em si mesmos como seguidores de uma ênfase wesleyana, mas como seguidores do Espírito Santo.

 

Qual foi a mais significativa contribuição dos Wesley?

         A recuperação de ensinamentos antigos e ecumênicos, e o enfoque na responsabilidade de pequenos grupos, firmados no estudo das Escrituras, na oração e atentos `a responsabilidade social. Essas prioridades não eram únicas ao seu movimento, mas elas eram mais intensas no metodismo do que em muitos outros.

         Os Wesley eram considerados radicais, porque eles levavam tão a serio a fé e as responsabilidades éticas que se consideravam incumbidos do cuidado de todos os cristãos.

 

VOCÊ SABIA?

Fatos interessantes e inusitados da

vida de John e Charles Wesley

                  

Elesha Coffman

 

MILAGRE DE NATAL

Quando Charles nasceu, em 18/12/1707, seus pais pensaram que ele estava morto, porque não chorava e nem abria os olhos. Ele nasceu prematuro de varias semanas, então o embrulharam em lã ate o dia em que deveria ter nascido.

             Aparentemente, após isso, ele teve uma infância saudável. Seus pais perderam oito ou nove crianças recém – nascidas.

 

LIVROS SÃO FEITOS PARA ANDAREM

         Os irmãos Wesley nunca pegavam carona para voltar da Faculdade, pelo contrario, andavam os 240Km entre Oxford e Epworth. Normalmente, a jornada era feita por estradas ruins, sob clima inclemente e, ate mesmo, sob ataque de bandoleiros. Para tornar as coisas piores, os irmãos liam enquanto andavam. A viagem amedrontava tanto a seu pai, que uma vez ele chegou a dizer: “Eu deveria ficar muito feliz de vê-los aqui nessa primavera, não fossem as duras condições que passaram para chegar”.

         John costumava sustentar que o habito de ler ao longo de 10 em 25 milhas de sua caminhada diária nunca tinha lhe causado nenhum mal.

 

UM CACTUS QUE DA FLORES

         O velho rabugento Samuel Johnson (1709-1784) tinha sentimentos contraditórios em relação aos Wesley. Ele conheceu John em Oxford e disse sobre ele: ”[John Wesley] tem uma conversa boa, mas nunca esta relaxado. Ele sempre precisa ir a determinada hora para cumprir uma obrigação. Isso e muito desagradável para um homem que ama esticar as pernas e jogar conversa fora, como eu”.

         Mais tarde, Johnson foi um dos que aplaudiram a expulsão de seis estudantes metodistas de Oxford, o que dificilmente deve ter contribuído para que a família dos fundadores do movimento metodista viesse a gostar dele.

         No final de sua vida, ele quis convidar Martha, a brilhante, mas pobre, irmã de John Wesley, para morar em sua casa. Infelizmente, Johnson morreu antes que pudesse ver seu desejo cumprido.

 

“UM JEITO ESTRANHO DE PENSAR”

         Susanna Wesley não tinha muita certeza de como se posicionar diante das experiências de conversão e coração aquecido de seus filhos. Ela escreveu para Charles: “Eu acho que vocês estão enveredando em um jeito estranho de pensar. Você diz que ate alguns meses atrás não tinha vida espiritual, nem a fé justificadora. Ora, isso e como se um homem pudesse afirmar que ele não estava vivo em sua infância, porque quando era um bebe não sabia que estava vivo. O que posso entender de sua carta e que, ate a pouco, você simplesmente não estava satisfeito em ser um cristão como você esta agora”.

Sons de Musica:

Charles Wesley não escreveu nem uma nota para seus 6.500 hinos, embora fosse um musico capaz. Ele comprou para si mesmo um órgão que e similar a um feito para George Frideric Handel, depois que sua esposa recebeu uma considerável herança. John Wesley também tocava um instrumento – uma flauta – mas seu estilo de vida extremamente ativo deixava pouco tempo para a musica.

 

Primeiro Púlpito:

Antes que John passasse a pregar ao ar livre, ele freqüentemente pregava dos altos púlpitos anglicanos, como o da Saint Mary the Virgin Church (Igreja de Santa Maria) em Oxford. Anos antes de Wesley, diante do Chanceler da Universidade, na mesma Igreja, o Arcebispo Thomas Cranmer pregou seu ultimo sermão, antes de ser queimado na estaca. Em séculos posteriores, John Henry Newman e C. S. Lewis também pregaram desse púlpito.

 

 

 

ACIMA DE TUDO, O CHA DA MENTA:

Charles poderia simpatizar com os atuais viciados em cafeína. Em 1746, ele tentou largar o habito de tomar chá, mas confessou: “Minha carne protestou contra isso. Eu ficava meio acordado e semimorto durante o dia; e minha dor de cabeça aumentava tanto, ate que eu não conseguia mais pensar nem falar. Isso me enfraquecia tanto que eu mal conseguia sentar em meu cavalo”.

 

OBRIGADO, MAS NÃO, OBRIGADO:

Apesar dos metodistas receberem aprovação por seu trabalho com grupos marginalizados, como prisioneiros, órfãos e doentes, mais tarde eles se tornaram tão impopulares, que ate essas portas lhes eram fechadas. John Wesley registrou em seu diário, em 22/02/1750: “Então, nos estamos proibidos de ir a Newgate (uma prisão), por medo de pervertê-los, e a Bedlam (um asilo) por medo de enlouquecê-los!”

 

NÃO FOI DESTA VEZ, AINDA:

Em 1753, John Wesley ficou tão doente que seu medico achou que ele iria morrer. Só para prevenir, John escreveu seu epitáfio: “Aqui jaz o corpo de John Wesley, um tição tirado do fogo, que morreu de tuberculose aos 55 anos de idade, sem deixar, após pagar suas dividas, sequer dez libras como bens. Partiu orando: ‘Que Deus tenha misericórdia de mim, um servo inútil’”!

         Quem o chamou, pela primeira vez, de um tição tirado do fogo, foi sua mãe, após ele ter sido resgatado de um incêndio em sua casa, em 1709. Mas John decidiu enganar a morte novamente. Dois dias após escrever o epitáfio, ele fez para si mesmo uma poção de enxofre, ovo branco e papel marrom, a qual imediatamente aliviou suas dores. Ele se recuperou e viveu mais 38 anos.

 

PRONTO PARA O BARULHO:

Depois de uma serie de terremotos na Inglaterra, cada vez piores (em 8 de fevereiro e 8 de marco de 1750), um autoproclamado profeta previu que um terceiro terremoto, em abril daquele ano, iria destruir metade de Londres. O povo da cidade ficou fora de controle. Charles Wesley escreveu 19 hinos sobre o assunto e publicou um sermão chamado “A causa e a cura dos terremotos”.

         Na noite prevista, John Wesley registrou: “Os locais de adoração estavam lotados, especialmente as capelas dos metodistas”. Nada aconteceu.

 

 

 

Inovando e respeitando as tradições

         Apesar dos Wesley serem corretamente conhecidos como evangelistas pioneiros, as bases para o movimento que eles fundaram foram lançadas bem antes de sua época.

         No século XVII, a frustração com o Estado Germânico levou ao surgimento do Pietismo, um movimento de renovação, dentro do Luteranismo, liderado por figuras como Philipp Spener e August Francke. Os irmãos Moravianos Reavivados, na Saxônia, estado de Nikolaus Von Zinzendorf, nasceram desse movimento.

         Como o mapa ilustra, o Pietismo e o Moravianismo exerceram uma vasta influência na Europa e além, parcialmente através de conexões ao trabalho dos Wesley.

Enquanto isso, na Inglaterra, Dissidentes (inclusive os avós paternos e maternos de John Wesley) ofereciam suas próprias alternativas ao modelo de Igreja-Estado. Seus

Encontros ou assembléias podiam ocorrer em qualquer lugar, e serem liderados por, praticamente, qualquer um, uma vez que o formato era simples e o foco era nas Escrituras. O Dissidentes que eventualmente vieram a se reunir às sociedades metodistas já estavam muito familiarizados com seus hábitos.

         Os Wesley conscientemente beberam em todas essas tradições ao desenvolverem o seu próprio pensamento. Ambos os irmãos experimentaram o seu  despertamento espiritual entre os moravianos. John leu e publicou clássicos do pietismo. Ele também traduziu hinos germânicos, enquanto Charles escreveu sua própria poesia inspirada nos moravianos. Os pregadores moravianos geralmente almejavam enclaves de imigrantes europeus, cientes de que seu trabalho seria facilitado pelas influências das tradições do continente.

         E as primeiras capelas metodistas foram construídas segundo as regras dos Dissidentes.  Entretanto, os Wesley e, após eles, os metodistas, não podem ser considerados meramente pietistas, moravianos ou dissidentes.

          Na verdade, os Wesley tinham grandes preocupações com relação a cada um desses grupos. Eles queriam que os metodistas evitassem os erros e excessos dos outros movimentos, ao mesmo tempo em que acendiam a chama do reavivamento, mas, permanecendo dentro da igreja Anglicana.

         Não surpreende que a convergência desses múltiplos movimentos e motivação tenha gerado alguma tensão. Os primeiros líderes metodistas, e mesmo os irmãos Wesley, estiveram em lados diferentes em numerosos debates. Mas, ao invés de acabar com o metodismo ou mesmo tirá-lo de seu caminho, essas discordâncias constituíam-se em uma tensão dinâmica, o caos que gera luz.

         Os Wesley não foram a lugares aos quais ninguém nunca tinha ido antes, contudo, eles corajosamente aproveitaram os melhores impulsos ao seu redor e forjaram um novo método de vida cristã. Eles foram precisamente os pioneiros que a Inglaterra do século XVIII estava esperando.

                                                                                                                       Elesha Coffman

 

 

 

METODISMO NO BRASIL

Uma brevíssima síntese

 

“Tenho pensado que sou criatura de um dia, passando pela vida como flecha pelo ar. Sou espírito vindo de Deus e para Deus voltando”.(Ver. John Wesley)

 

         Em 2003 foram comemorados os 300 anos do nascimento de John Wesley. Hoje, pensar o metodismo no Brasil nos leva ao problema de constituição de sua identidade, com reflexos para o futuro, quer na sua eclesiologia, quer na sua vasta ação educacional.

         O metodismo e a influência de Wesley chegaram à América latina, particularmente, ao Brasil, com várias ênfases, perspectivas e vivências de fé e prática. Entre as mais marcantes podem ser destacados os movimentos de santidade, onde a conversão individual acontecia na fronteira da emoção com a razão, bem como a ação a partir de uma compreensão da santidade com ênfase social e intelectual, caracterizada pela ação educacional e pelo cuidado amoroso para com o próximo, como componentes da ação evangelizadora.

         Esse núcleo de vitalidade do metodismo sofreu flutuações no decorrer do tempo, vindo a ser substituído, hora por uma ênfase racionalista, perdendo-se a presença da emoção no discurso e na prática da fé, numa mutação em direção a uma religiosidade racional; hora por uma ênfase emocionalista, perdendo-se a rica herança da razão na busca da compreensão da fé.

         Essas flutuações fizeram com que, muitas vezes, nos confrontássemos com as formas místicas e imediatistas das religiões de resultado. Um dilema se apresenta à Igreja Metodista brasileira: perder-se nas práticas religiosas de outras seitas ou assumir uma nova forma, buscando-se um equilíbrio entre memória, razão e emoção.

         A continuidade da Igreja Metodista é possível porque há um processo de reprodução e conservação da memória religiosa.     A condição para que a pessoa se reconheça como parte de uma tradição de fé depende, em parte, de referências ao passado e de lembranças comuns.

         Nos tempos atuais, somos desafiados a nos defrontar com a luta pelo não esquecimento da memória, em um retorno aos eventos fundentes, de forma dinâmica e atualizada, permitindo que esses eventos permaneçam “próximos”, no tempo e no espaço.

         Se o recurso da memória e da tradição é fundamental para toda a religião, particularmente a cristã, a sua eficácia está em seu dinamismo, trata-se de “movimentar” a Igreja e não simplesmente conservar a verdade da fé, isto é, da doutrina.

         O metodismo brasileiro se organiza, avalia-se e empreende avanços missionários tendo por referências seus documentos norteadores, emanados de seus Concílios Gerais, inspirados na tradição doutrinária, no Credo Apostólico, nos 25 Artigos de Religião do Metodismo Histórico, nos Sermões de John Wesley e suas notas.

         Acrescente-se a isso, as “fontes do conhecimento” na tradição wesleyana, que segundo Albert Outler, um dos maiores especialistas em Wesley no século XX, é o quadrilátero: Revelação, Experiência Pessoal, Tradição e Razão.

         A Criação, entendida por J. Wesley como a imagem de Deus na humanidade, considerada, contemporaneamente, uma das “fontes do conhecimento”, recompondo o quadrilátero, com o deslocamento da Revelação para o seu centro. Esta reconfiguração teológica é uma contribuição da Igreja metodista brasileira, de seus teólogos e historiadores, para o Metodismo mundial.

         Esta herança torna possível aos metodistas, em todo o mundo, identificarem-se como parte da família de Deus, irmanados nas ações que busquem a redenção integral da pessoa humana, sob inspiração do Espírito Santo. A Igreja Metodista do Brasil, parte desta herança, tem uma história mais que centenária, densa e complexa.

        

“Creio estar aqui a chave do segredo da prosperidade de uma denominação.Se ela for missionária, há de, forçosamente, prosperar.A Igreja que só cuida de si mesma, permanecerá estacionária ou retrogradará”.

                                                                                  Ver. J. A. Guerra/ Dezembro de 1927.

         Em 19 de Agosto de 1835, desembarcou, na cidade do Rio de janeiro, o Rev. Fontain E. Pitts, missionário norte americano, pioneiro da missão metodista. Passado algum tempo, organizou uma Igreja muito “respeitável, que se compunha dos melhores elementos da cidade”. Após quase um ano, o Reverendo Pitts retornou aos Estados Unidos, recomendando que missões fossem estabelecidas no Brasil.

         Atendendo ao clamor, três jovens missionários foram enviados: Ver. R. Justin Spaulding, já em 1836; Ver. Daniel P. Kidder e o casal de professores R. M. Murdy e esposa, em 1837. Foi um período de intensas atividades e de grandes lutas, em função , especialmente, da intolerância religiosa característica da época.

       Este período da missão metodista, como atividade organizada, terminou em 1841, em virtude das dificuldades políticas e eclesiásticas enfrentadas pela Igreja Metodista norte americana. Não houve atividade metodista regular em terra brasileira, entre final de 1841 até 1867 (26 anos).

         Em 1866, um grande número de estadunidenses, da região sul daquele país, imigraram para o Brasil, por causa da derrota que sofreram na guerra civil norte-americana.

         Entre eles estava Junius E. Newman, pastor metodista, que em agosto de 1871, organizou em Santa Bárbara do Oeste, interior de São Paulo, uma Igreja Metodista no Brasil, com nove membros, que seria a primeira igreja com atividades regulares, após um período de 25 anos de ausência.

         Das décadas finais do século XIX até as três primeiras do século XX, houve forte desenvolvimento das Igrejas, por meio da ação missionária de cristãos metodistas, clérigos e leigos, fervorosos e incansáveis na proclamação do Evangelho.

         Neste mesmo período de tempo ocorreu a fundação de quase todas as escolas metodistas que há, hoje, no Brasil. Após esse período, a fundação de outra instituição de ensino deu-se, somente, em 1963, com a criação do Instituto Metodista de Ensino Superior, em São Bernardo do Campo, São Paulo. Este forte impulso deu-se no período de subordinação da Igreja Metodista brasileira à Junta de Missões da igreja Metodista dos Estados Unidos da América.

Em 2 de setembro de 1930, deu-se a “Autonomia” da Igreja Metodista no Brasil, com fortes implicações, desde esse período até os nossos dias, buscando-se, sempre, a constituição de uma Igreja Metodista brasileira, não sectária, em diálogo com o mundo no qual somos chamados a viver e a proclamar o amor redentor de Deus, em Cristo Jesus, buscando-se, incansavelmente, um viver santo.

         Em 1982, por ocasião de seu XIII Concílio Geral, a Igreja Metodista reavaliou suas práticas, à luz da dinâmica da memória e da tradição. Aprovou o documento “Plano para a Vida e a Missão”, com forte impacto na redefinição de rumos e prioridades para seu futuro, seja nas ações eclesiásticas, seja na ação social e na educação, todas essencialmente missionárias, na perspectiva da ênfase bíblica nos Dons e Ministérios.

         Em especial, o compromisso metodista com a educação permanece e se fortalece como um dos caminhos privilegiados para a missão de Deus se fazer presente e para modificar a nação.

         Somos desafiados a rumarmos, de forma decidida e corajosa, em direção ao futuro de Deus, fortalecidos na experiência e vivência da “fé atuando através do Amor”, uma das ênfases de John Wesley.

                        Ver. Dr. José Luis Corrêa Novaes / Prof. André Sathler Guimarães

 

Um conto de dois irmãos

“Como muitos irmãos, John e Charles Wesley, geralmente tinham desavenças, mas eles acabaram por aperfeiçoar o movimento metodista” – (Richard P. Heitzenrater)

 

         Em 1785, com 82 anos, John Wesley escreveu uma carta dura para seu irmão, Charles, então com 77 anos, que tinha sido, por muitos anos, um crítico aberto da liderança de John sobre o movimento metodista.

         “Se você não ajudar, não atrapalha”, disse o irmão mais velho. “Talvez, se você tivesse ficado do meu lado, eu teria me saído melhor. Contudo, com ou sem a sua ajuda, eu continuei”.

         A história do início do metodismo, é claro, mais do que a história desses dois irmãos. Mas o desenvolvimento do movimento não pode ser completamente compreendido sem que se conheça a ambos.

 

A Mente Como Principal:- Ainda que tenha promovido o cristianismo afetivo, John Wesley raramente era dominado pelas emoções.

“Eu sou muito raramente levado por impressões”, ele disse, “mas geralmente pela razão e pelas Escrituras”. “Eu vejo muito mais abundantemente do que eu sinto”.

 

Dupla Dinâmica

 

         John tinha 4 anos quando Charles nasceu (prematuro de 8 semanas), em 1707.

         Charles tinha 6 anos quando John foi para a Charterhouse School, em Londres. Os anos de infância em Epworth não deixaram muito espaço para os dois irmãos serem, simplesmente, irmãos.

         Embora Charles também tenha ido para uma escola em Westminster, perto de Londres, três anos após a ida de John, eles provavelmente não se viam muito. A primeira oportunidade que tiveram de crescerem próximos somente surgiu quando os dois estudaram juntos em Oxford, no final da década de 1720.

Como um jovem estudante do Christ Church College, Charles passou por uma reforma pessoal em 1728.  Em uma questão de meses, eles compartilharam muito dos métodos de pensamento e ação que logo se tornariam característicos do povo chamado “metodista”.

         John Gambold, um amigo de ambos em Oxford, descreveu Charles como sendo “profundamente sensível” da senhoridade de John: “Eu nunca vi uma pessoa mostrar uma deferência tão real e tão grande para outra, como ele constantemente demonstrava por seu irmão”.

Gambold achava que Charles imitava tanto a John que disse: “Se eu pudesse descrever um deles, eu descreveria os dois”. Entre suas semelhanças, podemos destacar que ambos eram poetas assumidos, como fora seu pai, Samuel, e seu irmão mais velho, Samuel Jr.e uma de suas irmãs, Kezzi. Embora nenhum dos dois irmãos mais velhos tenha composto músicas, ambos eram músicos – John tocava flauta e Charles órgão.

         Ambos foram ordenados na Igreja Anglicana, como seu pai. Eles estudaram no Christ Church College, em Oxford. Ambos tiveram uma experiência de transformação espiritual. Ambos se casaram. Em alguns casos, John precedeu seu irmão mais novo. Em outros, entretanto, Charles tomava a frente, como no despertamento espiritual e no casamento.

Quando John decidiu se tornar um missionário na Geórgia, em 1735, ele convenceu Charles a ir com ele. Charles registrou em seu diário, que seu irmão mais velho sempre tivera “ascendência” sobre ele e, apesar de Charles ter receio de ser ordenado, John o convencera, de modo que ele pudesse ajudar com o trabalho paroquial na nova colônia.

Apesar de ter sido certificado apressadamente (ordenado diácono e presbítero em duas semanas, quando o intervalo usual era de 2 anos), Charles levava sua posição clerical a sério. E, apesar de John afirmar, constantemente, desde então , que ele viveria e morreria como um homem da Igreja Anglicana, era Charles que de fato mantinha maior proximidade à Igreja, com o passar do século.

Neste assunto em particular, ele se tornou a consciência de seu irmão mais velho. O relacionamento entre os irmãos era espinhoso, por vezes. Mas eles tinham peito e confiança um no outro, o que permitia que as tensões pessoais produzissem resultados positivos quando questões maiores estavam em jogo.

 

Coração e Alma:- Charles Wesley podia ser melancólico e até mesmo duro, mas ele tinha uma personalidade viva. Um professor da Faculdade disse que ele era “um homem feito para a amizade, que, por seu entusiasmo e vivacidade, refrescaria o coração do amigo”.

 

Corações Aquecidos

 

         Quando os irmãos embarcaram para a Georgia, John tinha estado pregando por uma década, mas seu irmão mais novo era apenas um novato, recém ordenado. Charles passou parte de seu tempo no navio copiando muitos dos sermões de Wesley, para usar na Georgia.

         Nenhum dos dois, todavia, teve uma experiência positiva na Georgia. Ambos perderam os favores dos poderes políticos que deveriam apoiar. Charles, doente e deprimido, voltou para casa passados 6 meses. John resistiu por mais um ano, então decidiu que seria melhor voltar para a Inglaterra do que enfrentar acusações diante de um júri preparado por seus inimigos. (ver seção “Wesleys na América – O que deu errado?” [pág. 14]).

         Embora os esforços missionários dos irmãos não tenham correspondido às suas expectativas, sua interação com alguns dos colonos que eram da tradição dos Pietistas alemães, que conheceram quando cruzaram o Atlântico, teve importantes conseqüências. Os colonos, um grupo de moravianos, tinham permanecido calmos durante uma tempestade potencialmente mortal, o que impressionou muito os irmãos Wesley. Desejando ter a mesma profundidade de convicção espiritual, os irmãos procuraram Peter Boehler, que se tornou o seu mentor espiritual.

         A mensagem de Boehler era simples: uma fé apropriada resultaria em um claro senso de convicção da salvação. Não era possível ter um sem ter o outro. E uma fé desta natureza seria acompanhada por Amor, Paz e Alegria no Santo Espírito. Ao mesmo tempo, a pessoa ficaria livre do medo, da dúvida e do pecado. Essa experiência, essencialmente centrada no coração, era necessária para quem quisesse se tornar um cristão verdadeiro.

         Charles foi o primeiro a ter essa experiência “moraviana”. No dia 21 de maio de 1738, ele sentiu poderosamente a presença perdoadora de Cristo: ”Eu senti uma estranha palpitação no coração”. Essa foi sua descrição do evento.

         John se juntou aos amigos que foram aos aposentos de Charles naquela noite, para se regozijarem com ele, orarem e cantarem o hino que Charles escrevera para a ocasião. John estava emocionado pelo irmão, mas seu coração deve ter adoecido, porquanto ele voltava para a escuridão e enfrentava suas próprias dúvidas e questionamentos.

         Três dias depois, John viria a experimenta, ele mesmo, a “convicção”. O cenário era uma reunião de uma pequena sociedade religiosa, na Aldersgate Street. O catalisador foi um clássico pietista: o prefácio de Martinho Lutero ao Livro dos Romanos. Também, segundo a tradição pietista, a experiência de Wesley incluiu uma intensa sensação , conforme ele mesmo descreveu: “Eu senti meu coração estranhamente aquecido”.

         Não causa surpresa que essas duas experiências, de inspiração moraviana, fossem expressas com o imaginário do coração. Especialmente digno de nota, contudo, é o fato de ambos os irmãos terem achado a sensação “estranha”. Todavia, o registro de John sobre sua experiência em Aldersgate, na forma que foi registrada em seu diário público, tornou-se a norma para muitos de seus seguidores.

 

Corações em Conflito

         Da mesma forma que a jornada espiritual dos irmãos não foi idêntica, sua teologia e eclesiologia divergiam em alguns pontos. Com relação ao processo de salvação, Charles parecia ter tido um senso inicial de que o “quase cristão”, alguém que está lutando com a fé, devia ser reconhecido como tendo a fé “de um servo”.

         John persistiu por mais tempo, na convicção de que o “quase cristão” não tinha nada de cristão, por não ter ainda experimentado a plena convicção espiritual.

 

 

 

RELANCE DE CONVENCIMENTO - Com as roupas da Charterhouse School, John dizia que ele mesmo não era “tão mau quanto as outras pessoas”.  

 

 

FARINHA DO MESMO SACO?: - Para muitos dos companheiros de Oxford, os irmãos Wesley pareciam idênticos, mas eles nem sempre viam olho a olho. John reclamava que, em seu primeiro ano, Charles “perseguia seus estudos diligentemente e levava uma vida regular e tranqüila; mas, se eu falasse com ele sobre religião, ele iria responder calorosamente: ‘O que você que eu seja, um santo? De repente?’, e não me ouvia mais”. As miniaturas acima, pintadas entre 1720 e 1730, foram descobertas em 1917, armazenadas com o Testamento de sua irmã, Martha.

 

         John se debateu com essa questão por muitos anos, eventualmente modificando sua opinião para aceitar “casos excepcionais” de pessoas que não tinham passado pela experiência da “convicção”, mas que eram certamente cristãos reais. Nos seus últimos anos, ele passou até mesmo a aceitar que as Escrituras deviam ser aceitas literalmente, quando afirmam que alguém que simplesmente temesse a Deus e trabalhasse com retidão, seria aceitável por Deus.

         Em geral, quando os irmãos discordavam sobre teologia, John sentia que seria melhor continuar com suas próprias crenças. Assim, ele encorajou Charles a continuar enfatizando a santificação como uma dádiva da Graça de Deus, recebida em um momento (instantâneo), mas continuou a debater a importância do crescimento em santidade, por meio da Graça Preveniente (processo).

         Uma vez que as duas abordagens resultariam no mesmo – espalhar a santidade bíblica sobre a terra – ambas eram benéficas. Mas os irmãos divergiam menos em teologia do que na forma apropriada de organizar o movimento. Ambos estavam preocupados com o relacionamento entre os metodistas e a Igreja Anglicana.

         Ambos não queriam que o metodismo se tornasse uma nova seita religiosa. Caso os Wesley não tivessem levado esse ponto a sério, as posições anglicanas contra o “Entusiasmo” e as políticas governamentais sob o Ato de Tolerância, poderiam ter restringindo radicalmente o movimento metodista.

         Mas a discussão sobre até que ponto os metodistas poderiam permanecer dentro da Igreja Anglicana, mas sendo distintos, ainda foi ponto de conflito entre os irmãos. Há três pontos, nesse assunto, que apontam para as diferenças entre eles.

 

Pregadores Leigos

         Após George Whitefield ter convencido os irmãos Wesley de que a pregação ao ar livre, embora atípica, tinha um bom precedente no Sermão da Montanha, a próxima grande questão entre eles foi se os leigos poderiam ou não pregar. Essa prática também tinha precedentes na Igreja Anglicana, mas era ainda mais irregular do que as pregações ao ar livre.

Charles estava apenas começando a se acostumar com a idéia da pregação ao ar livre e sempre questionava o grande número de pessoas que Whitefield e Wesley reportavam como tendo assistido aos sermões. Quanto à pregação dos leigos, Charles era ainda mais cético. John, contudo, estava convencido (por sua mãe e pelas suas próprias observações), que os pregadores leigos, como Thomas Maxfield, poderiam ser canais para a Graça Redentora de Deus.

Como o movimento cresceu e a necessidade de pregadores excedia muito o número de clérigos anglicanos que eram associados ao metodismo, John designou mais pregadores leigos para servirem às sociedades metodistas. Nenhum foi separado para tal serviço, contudo, sem que antes tivesse sido examinado quanto a seus “Dons, Graças e Frutos”.

 

 

Teste de Fé: - Durante sua viagem para a América, em um navio parecido com esse, John escreveu em um diário: “O mar se quebrou sobre o convés, partiu o mastro principal em pedaços, cobriu todo o navio, e se despejou para o interior, como se a grande escuridão já tivesse nos engolido. Uma terrível gritaria começou entre os ingleses”. Mesmo assim, um grupo de moravianos a bordo permaneceu calmo, continuando a cantar seus hinos, fato que entusiasmou e marcou profundamente os irmãos.

 

         Charles começou a questionar algumas das pessoas que John estava nomeando, bem como a prática em si. John respondeu, durante a década de 1750, colocando Charles como encarregado dos exames dos candidatos a pregadores leigos. Embora inteligente essa medida não resolveu o problema.

         Charles insistia que os pregadores leigos tivessem “dom” para o trabalho. Então, sujeitava os candidatos a exames muito rigorosos. Alguns ele mandava para casa. John era menos exigente, porque, como afirmava, “entre os dois, eu prefiro a Graça ao Dom”.

         As visões dos irmãos entraram em rota de choque, por exemplo, no caso de um alfaiate que John fizera pregador. Charles disse a um amigo, com orgulho: “Eu, com a ajuda de Deus, vou fazer com que ele seja novamente um alfaiate”.

         John temia que os altos padrões estabelecidos por seu irmão causassem uma escassez de pregadores. Ele pediu a Charles que facilitasse haver líderes suficientes para as crescentes necessidades. Enquanto tinha o poder, contudo, Charles foi incansável na sua tarefa de “purgar a Igreja, começando pelos obreiros”.

         Charles procurou engajar vários clérigos amigos em seu esforço de convencer John contra a prática de nomear pregadores leigos. Tais esforços apenas fizeram crescer o mal entre os irmãos, que acabou por se espalhar para um número de outras questões correlatas.

         A convicção de John de que os pregadores leigos deveriam ter o direito de trabalhar em um tempo integral no ministério pastoral, combinada com a sua hesitação em pagar-lhes salário suficiente, magoava Charles. Ele achava que esse arranjo dava a John, ainda que inconscientemente, muito controle sobre a vida dos pregadores. Ele dizia que ‘John governava com uma vara de ferro’. Em uma carta insolente a um amigo, Charles argumentou que os pregadores deveriam ser autorizados a ganhar dinheiro por sua conta. Com esse apoio, eles não teriam que depender tão inteiramente de John para “o pão de cada dia” o que ajudaria a quebrar seu poder e a “reduzir a sua autoridade aos limites devidos”.

         Charles também sentia que tal mudança serviria como prevenção à “credulidade [de John] de que havia me mantido em contínuo temor e escravidão por tantos anos”.

         Infelizmente, essa carta chegou às mãos de John, que rapidamente rabiscou uma grosseira resposta a Charles, acusando-o de esvaziar os fundos da sociedade para seus gastos pessoais, enquanto John já dava a ele uma receita de 50 libras, mais uma anuidade de 100libras oriunda dos fundos de livros.

         Apesar da soma ser mais do que o dobro do que John definiu para si mesmo, pode-se dizer que John falhou por não considerar que Charles era casado e tinha 3 filhos.

         Nesses conflitos sobre pregadores, os irmãos mediavam os extremos pontos de vista de cada um. John evitava que Charles fosse muito duro com relação às habilidades dos pregadores e Charles lembrava a John das legítimas necessidades financeiras desses.

 

ORDENAÇÃO

         Quando os pregadores leigos seus congregados pressionaram por ordenação, para que os Sacramentos pudessem ser distribuídos dentro da sociedade. John às vezes para que os sacramentos pudessem ser distribuídos dentro das Sociedades.

         John, às vezes, parecia certo de aceitar. Charles fez um ataque frontal a essa idéia, certo de que tal passo era totalmente inapropriado, bem como resultaria em inevitável separação da Igreja Anglicana.

         Como resultado, os irmãos tentaram cimentar os pregadores em um acordo comum. John e Charles produziram documentos, separados, para a necessidade de lealdade comunitária, enquanto Charles afirmava o compromisso expresso de “nunca deixar a comunhão da Igreja Anglicana”. Como Charles dissera uma vez “a preocupação primeira de John era para com os metodistas”, ao passo que a sua era primeiro para com a Igreja Anglicana e, depois, para com os metodistas.

         John partiu para a guerra nesse assunto, quando as colônias americanas assinaram a Paz de Paris, em 1783, rompendo laços políticos e eclesiásticos com a igreja Anglicana. Nessas circunstâncias, John enxergou a necessidade de clérigos para os metodistas americanos, que pudessem ministrar os Sacramentos.

         Com esse objetivo, ordenou dois pregadores, um como diácono e outro como presbítero, separando Thomas Coke e Francis Asbury como superintendentes gerais (eles assumiriam o título de bispo posteriormente. John fez isso em particular, contra os conselhos e sem o conhecimento de seus pregadores mais antigos, inclusive Charles).

TRIBO E NAÇÃO:- John alcançou tanto os colonos como os índios, na América. Tomo-chachi, um velho chefe da tribo dos Creek, confessou a John que ele e seu povo queriam ouvir a Grande Palavra. ‘Mas, ele disse, nós não seremos feitos cristãos como os espanhóis fazem os cristãos: nós queremos ser ensinados, antes de sermos batizados.” Após o retorno de John para a Inglaterra, anos depois, outros missionários metodistas cruzaram o Atlântico para continuar o trabalho”.

 

         Pela lei canônica da Igreja Anglicana, essas ações eram exclusivamente reservadas para bispos. A reação de Charles era previsível em sua substância, mas não na forma. O poema que ele escreveu atacando John era inclemente em sua retórica:

So easily are Bishop made

By man’s or woman’s whim?

Wesley his hands on Coke hath land

But who land hands on him?

 

Tradução:

E assim se fazem mais bispos

Como queira um homem ou mulher

Wesley se impunha sobre Coke

Mas o controle sobre ele mesmo é mistério.

 

         John argumentou que era um caso de extrema “necessidade”. Tendo em vista que a Igreja não tinha mais jurisdição, ou se reservava para não agir, ele simplesmente tinha respondido como um bispo no sentido do Novo Testamento, atendendo às necessidades do Corpo de Cristo. John admitiu a divergência de opinião com Charles sobre este assunto: “Você diz que eu me separei da Igreja. Eu digo que não. Deixemos assim.”.

         Caso John tivesse ignorado a ansiedade de Charles sobre o tema, pode ser que os metodistas americanos tivessem se separado prematuramente da Igreja Anglicana.

         Por outro lado, se John tivesse aquiescido a Charles, os metodistas americanos nunca teriam recebido pregadores ordenados. Talvez tivessem sido forçados a continuar como um subgrupo de anglicanos, que resistiram à Revolução Americana (que resultou na Independência daquele país), no que veio a se tornar a Igreja Episcopal Protestante (Episcopal Protestante Church).

         Pelo contrário, já no século XIX, os metodistas eram a maior denominação protestante nos Estados Unidos.

        

 

 

HINOS

         Os metodistas eram conhecidos como um povo que canta, sobretudo devido ao trabalho poético dos Wesley. E, apesar dos irmãos discordarem nessa área algumas vezes, a sua colaboração aqui produziu melhores resultados do que cada um alcançaria sozinho.

         John, certa vez, descreveu assim seu relacionamento com Charles: “De um certo modo, eu posso ser a cabeça e você o coração do trabalho”.

         Apesar de Charles ser mais conhecido como um escritor de hinos, John tinha publicado poesia mais de uma década antes dele. John até mesmo publicou, sozinho, um hinário, na América. Quando a poesia de Charles começou a aparecer, em 1738, ela foi geralmente publicada em volumes sob o nome dos dois irmãos.

         Na maioria dos casos, John tinha a palavra editorial final, no tocante ao que seria incluído e como seria letrado. Sua seleção e edição do trabalho de Charles incluía sua perspectiva crítica, tanto literária como teológica. John, como afirmou no prefácio ao hinário de 1780, não publicaria “nada despretensioso, nada estropiado, nada colocado para marcar o ritmo, numa palavra de baixo calão... nenhuma falsa afirmação, nenhuma palavra sem significado”.

         A coleção que pode ser chamada de definitiva, chamada Collection of Hymns for the Use of People Called Methodists (Coleção de Hinos para o Uso do Povo Chamado Metodista), incluiu 525 hinos. A maior parte foi escrita por Charles, embora John tenha contribuído em alguns, inclusive fazendo algumas traduções do alemão.

         Todos os hinos passavam pela pena editorial de John, um passo essencial. Ele examinava os adjetivos em uma perspectiva teológica. Ocasionalmente, ele achava os hinos de Charles muito efusivos e “moravianos”. John emendava algumas das frases de seu irmão, quando as considerava muito amadoras. A frase “Quando, querido Senhor” dava lugar a “Quando Gracioso senhor”. John excluiu o hino “Jesus, Lover of my Soul” (Jesus, amado de minha alma), da coleção de 1780.

         Além de precisarem de revisão teológica e literária, muitos dos poemas de Charles tinham mais de 20 versos. John escolhia os melhores versos e, por vezes, dividia um poema muito longo em mais de um hino.

         Charles nem sempre aceitava os limites de seu irmão. Logo após John ter acertado um acordo com Whitefield e os metodistas calvinistas para evitar o uso de terminologia contenciosa, inclusive qualquer referência à “perfeição sem mácula”, Charles trabalhou especificamente esta frase em um de seus novos hinos. Também, em mais de uma ocasião, Charles “desviava” pequenas coleções de hinos para outros editores, sem o conhecimento de seu irmão.

         O hinário de 1780 realmente reflete o relacionamento simbólico dos irmãos.

         Esse “pequeno corpo de prática e experiência divina” forneceu o mais popular e duradouro canal para a divulgação da teologia Wesleyana.

 

Meu companheiro se foi

Nos últimos anos, Charles passava mais e mais tempo com sua família, especialmente com seus filhos músicos, Charles e Samuel. Ele ainda pregava nas sociedades em Londres, mas raramente atendia às Conferências Anuais de pregadores metodistas após 1765.

John percebeu que seu irmão havia saído da corrente principal de liderança do movimento. Não obstante, ele continuou a crer que Charles permaneceria ao seu lado, algumas vezes idealizando seu irmão como um potencial sucessor.

         Quando Charles contraiu aquela que seria a sua última enfermidade, em 1788, John finalmente assumiu que seu irmão viveria mais que ele e seria seu sucessor. 

         Enquanto rodava o Reino Unido em sua itinerância, John mandava recados para seu irmão, para que saísse de casa e se exercitasse no lombo de um cavalo, uma fórmula que tinha salvado sua própria vida uma vez.

         A chocante notícia da morte de Charles chegou a John quando ele estava no norte do país. A profundidade de seu sentimento por Charles não pode ficar contida, mesmo em público. No primeiro culto que liderou após receber notícia, John chorou durante um hino, quando ouviu as palavras de Charles: “Meu companheiro se foi” (my company before is gone).

         Como um bom anglicano, Charles foi enterrado no cemitério da Igreja paroquial que freqüentava, na Marylebone Street, em Londres. John, por outro lado, tinha duvidado da necessidade de ser enterrado em solo sagrado. “Até que ponto é o solo consagrado?”, era a sua pergunta crítica.

         Conseqüentemente, o enterro de John, em 1791, foi feito atrás da Methodist New Chapel, na City Road, em solo não anglicano. Esse prédio, por si mesmo, incorporou a ambigüidade da situação eclesiástica dos metodistas. Mais do que uma casa de pregações, ele foi construído com uma perspectiva sacramental – a primeira construção metodista a incluir um altar e o genuflexório.

         Não importa tanto, que a construção tenha sido feita com um recuo em relação à rua, segundo o que se exigis de uma casa de reuniões de dissidentes. No final, John ainda era um dos poucos convencidos de que os metodistas não tinham se separado da Igreja Anglicana, uma vez que eles não tinham saído por dissidência e nem expulsos por excomunhão.

         Apesar de John ter afirmado que ele viveu e morreu como um “homem da Igreja Anglicana”, seu epitáfio não faz menção à Igreja estabelecida. Ao contrário, ele reflete mais o ponto de vista de Charles sobre o assunto.

         A inscrição diz que a intenção da vida de John fora “reavivar, fortalecer e defender a pura doutrina dos Apóstolos e a prática da Igreja Primitiva”. Essas palavras claramente testemunham o fato de que Charles fora, finalmente, incapaz de manter o irmão dentro do redil (aprisco) da Igreja Anglicana.

                                                                                           

Richard P. Heitzenrater:- professor de História da Igreja e estudos Wesleyanos na Duke Divinity School.

 

O Velho encontra o Novo:- A Wesley’s New Chapel, na City Road, em Londres – a Igreja Mãe do Metodismo Mundial – reflete as sensibilidades entre Anglicanos e Dissidentes. Quando John morava nos quartos acima da igreja, a casa de reuniões na Foundery (Fundição) ficava bem na esquina, e da sua janela, ele podia olhar e ver o túmulo de sua mãe. Heróis dos não conformistas, como John Bunyan e Isaac Watts, também, estão enterrados nas redondezas.

 

 

WESLEYS NA AMÉRICA - O QUE DEU ERRADO?

         Após passar apenas um dia na América, John Wesley já tinha graves preocupações sobre as novas colônias. Ele escreveu em seu diário, em 19 de fevereiro de 1736: “Atentai, América, não se torne uma Inglaterra”.

         Um ano antes, apenas John e Charles tinham estado com se pai, na hora de sua morte. A paróquia de Epworth foi oferecida a John, mas ele rejeitou, porque precisava do rigor espiritual do Clube Santo de Oxford.

         Três meses depois, um dos administradores da colônia da Georgia desafiou John e o Clube Santo a irem para a América pregarem para os índios e colonos. John hesitava em deixar sua mãe, mas ela, espiritualmente, respondeu: “Tivesse eu vinte filhos, eu deveria me alegrar que eles estivessem todos bem empregados, mesmo que eu nunca mais os visse”.

         Pelo contrário, só dois de seus filhos embarcaram no Simmonds, e ela os veria de novo em apenas dois anos.  No dia 4 de fevereiro de 1736, o Simmonds chegou à costa da Georgia, John leu em sua bíblia: “Uma grande porta está aberta”, e acrescentou em sua oração: “E não deixe ninguém fechá-la”.

         Apesar dos Wesley terem ido para a Georgia para pregar aos índios, eles logo descobriram que os líderes na colônia tinham lhes reservado outras tarefas. Charles tornou-se secretário pessoal do governador da colônia, Coronel James Oglethorpe, e John serviu como pároco dos colonos em Savannah.

         Quase que imediatamente, Oglethorpe se voltou contra Charles. O coronel o forçou a dormir no chão de uma choupana e, mesmo quando isso fez com que ele ficasse seriamente doente, Oglethorpe recusou o seu pedido por uma casa. Atordoado, Charles finalmente descobriu que duas mulheres tinham espalhado rumores caluniosos sobre si.

         Oglethorpe desculpou-se por seu comportamento e restabeleceu os privilégios de Charles, mas este continuou mal e desencorajado. Logo depois o coronel ordenou que Charles voltasse para a Inglaterra e entregasse relatórios de que a Georgia estava em confusão. Charles apenas sentiu-se feliz em poder ir.

         Nesse ínterim, John tinha se apaixonado por uma de suas paroquianas, Sophy Hopkey. Por várias razoes, contudo, ele não conseguia se decidir e pedi-la em casamento. Finalmente, ela desistiu de esperar e noivou com um certo Sr. Williamson.

         John chegou a pensar que morreria de pesar, e até escreveu em seu testamento. Após o casamento de Sophy, John mergulhou no trabalho. Ele até tentou ser o pastor do casal Williamson, mas não funcionou. Cinco meses depois, John se recusou a servir a comunhão para a senhora Williamson. Sem dúvida, o ciúme teve um papel importante nessa decisão, embora John tivesse argumentado de que assim o fizera por saber que ela tinha pecados inconfessos.

         A cólera desabou sobre a cabeça de John, de todos os lados, e o casal Williamson o processou por difamação moral O julgamento arrastou-se por meses e, finalmente, John registrou em seu diário: “Eu vejo claramente que chegou a hora de deixar esse lugar”.

         Na iminência de ser banido, ele partiu para a Inglaterra em 2 de dezembro de 1737 e chegou em casa dois meses depois.

Sua carreira missionária no estrangeiro tinha se acabado.

 

                                                                                                      Kenneth O. Brown

 

 

TAL MÃE, TAL FILHO

Os pais de John Wesley, especialmente sua mãe, influenciaram profundamente seu caráter e sua carreira.

Charles Wallace Jr.

 

         O Rev. Samuel Wesley nunca se importou muito com a Isle of Axholme, uma pequena elevação no meio da região rural de Lincolnshire. Ele estava certo de que seus talentos teológicos e literários o tornavam mais apropriado para um episcopado ou uma designação como Prime (principal) em Londres. Porém, ele foi designado para as igrejas das vilas de Epworth e Wroot, onde ficou do final do século XVII até 1735.

         A esposa de Samuel, a londrina Susanna, também tinha talentos literários e teológicos, associados a um senso prático que a ajudou a se sair bem em seu novo contexto rural. E ela não tinha medo de questionar a autoridade de seu marido.

         John absorveu idéias de ambos os seus “incomuns” pais, mas foi sua mãe que, claramente, exerceu maior influência sobre ele. Por exemplo, a incisiva biografia que Elsie Harrison escreveu de John, foi simplesmente chamada de “O Filho de Susanna”.

         Susanna logo ganhou a reputação de discutir sobre teologia e política. Suas cartas para uma nobre que morava nas redondezas e também para um clérigo conservador renegado, revelam detalhes de uma briga que ameaçou o casamento deles, em torno de quem seria o rei mais apropriado em 1701.

         Samuel e Susanna apoiavam os princípios mais elevados da Igreja Anglicana e as políticas da realeza, mas Samuel tinha feito as pazes com o regime de William e Mary, colocados no trono pelo Parlamento, enquanto Susanna desaprovava.

         Uma noite, ela se recusou a dizer “amém”, na oração do Livro de Orações (Book of Common Prayer) que pedia pela vida do Rei William – uma indicação não tão sutil de seu apoio à família Stuart, a qual Susanna acreditava que deveria continuar no trono por direito divino.

         Apoiado pelo conselho de amigos, Susanna manteve sua decisão e recusou-se a ceder aos protestos de seu marido. Ele finalmente disse a ela: “você e eu devemos nos separar, se temos dois reis, devemos ter duas camas”. De fato, eles se separaram por alguns meses.

         Samuel retirou-se para Londres, dando a Susanna a única pausa (período sem gravidez) em toda a sua vida reprodutiva. Um incêndio na casa paroquial de Epworth, bem como a indicação de um novo monarca, a Rainha Anne, sobre cujo mérito ambos concordavam, acabou por unir o casal. O fruto da reconciliação nasceu em 17 de junho de 1703 e foi batizado como John.

         A segunda ruptura ocorreria nove anos depois e também envolveria a ausência do pároco de Epworth. Samuel tinha viajado para Londres como um delegado à convocação da Igreja Anglicana, deixando a paróquia nas mãos de um vigário que não despertava muito ânimo.

         Susanna decidiu superar o problema convidando paroquianos para se unirem às orações familiares, que ela conduzia nos finais das tardes de domingo, na cozinha da casa paroquial. Logo, esses cultos vespertinos (ilegais, uma vez que qualquer encontro religioso não registrado, ocorrendo fora da Igreja Paroquial, poderia ser considerado como uma assembléia de não conformistas)chamaram a atenção do pároco substituto, que os denunciou ao Rev. Samuel. Ele, então, escreveu para Susanna, exigindo que os encontros cessassem.

         Susanna respondeu afirmando sua independência em relação à autoridade do marido e de clérigo de Samuel. Ela argumentou que, em sua ausência, ela se considerava, corretamente, responsável pelo cuidado espiritual de seus filhos e servos e que, se outros queriam se unir a eles nos cultos, ela não poderia proibi-los.

         Terminou com um ultimato: “Se você deixar de dizer o que deseja que eu faça, pois isso não vai satisfazer minha consciência; mas, der uma ordem direta, com todas as letras, eu posso interromper os cultos. Mas estarei absolvida de toda a culpa e a punição  por negligenciar essa oportunidade de fazer o bem a algumas almas, ela será toda sua, quando nós dois comparecermos perante o grande e terrível tribunal de nosso Senhor Jesus Cristo”.

         John, então com nove anos de idade, participava dos encontros de sua mãe (mais tarde, viria a patrocinar seus próprios encontros espirituais extracurriculares).

         Refletindo sobre eles, logo após a morte de Susanna, ele escreveu: “Ela foi, do seu jeito e grau, uma pregadora do reto caminho”. Durante tudo isso, Susanna criou as crianças com disciplina, mas com ternura, de modo a guiá-los, segundo disse a John em uma carta, “a um método regular de vida”. Ela dava jeito de tomar conta de uma casa tão grande e cheia e ainda encontrava tempo para suas devocionais particulares.Parte devido a um puritanismo residual (herança de seus pais), a abordagem educativa de Susanna insistia em “conquistar a vontade”das crianças e ensiná-las a “temer a vara e a chorar levemente”.

         Embora isso possa soar duramente para os ouvidos modernos, a prática incluía a justa e firme aplicação das regras da casa, instrução de um a um na leitura e na religião e uma determinação especial para educar seus filhos e filhas acima das expectativas usuais.

         Cada criança tinha sua atenção individual pelo menos uma vez por semana.

         Como Susanna registrou em seu diário em 1711: “Molly na segunda, Hetty, na terça, Nancy, na quarta, Jacky (apelido familiar de John Wesley), na quinta, Patty,, na sexta, Charles no sábado, Bendito seja Deus! Um para cada dia da semana e dois (Emily e Sukey) para o domingo!”

         A criação metódica das crianças deixou uma forte impressão na “criança da quinta-feira” e claramente influenciou o altamente disciplinado movimento que ele começaria três décadas mais tarde. John publicou sua famosa carta sobre “criação de crianças” em seu diário e recomendou sua adoção mais de uma vez, em seus sermões.

         Minha própria mãe teve dez crianças”, ele disse do púlpito, “ e cada uma delas teve suficiente personalidade, ainda que nenhuma delas fosse ouvida chorando depois de um anos de idade”.

 

 

 

FANTASMA NA FAMÍLIA?

Entre 1716 e 1717, a casa em Epworth hospedou um visitante sobrenatural. O “velho Jeffrey”,`como as crianças o chamavam, fazia uma variedade de barulhos (batidas, gemidos, explosões e ranger de correntes) e algumas vezes aparecia como uma criatura em forma de texugo, rastejando pelo chão.

Toda a família, bem como um clérigo que morava nas redondezas, viram ou ouviram o velho Jeffrey, e ninguém conseguia achar vestígios de algum trote. Embora inicialmente cética, Susanna, escreveu para seus dois filhos mais velhos que estavam em Oxford, dizendo que estava totalmente convencida de que estava acima do poder de qualquer criatura humana fazer barulhos tão variados e estranhos.

Contudo, um registro da filha mais velha, Emily, talvez seja a melhor pista dos incidentes. Ela observou que o início dos eventos se deu logo após um incisivo sermão de seu pai contra práticas religiosas folclóricas – tais como a consulta a aqueles que são chamados de “homens sábios” – às quais nosso povo é dado, logo depois de uma denúncia de bruxaria em uma paróquia vizinha.

Caso paroquianos estivessem por trás das assombrações, não seria a primeira vez que eles causavam problemas. Adversários locais já tinham mutilado alguns dos animais dos Wesley e podem também ter sido os causadores dos incêndios na casa paroquial em 1702 e 1709.  Seja um visitante sobrenatural, seja uma conspiração de carne e osso, o velho Jeffrey pode representar um dos muitos ruídos entre uma visão local de mundo e o ponto de vista de um observador racional que vinha de fora.

                                                                                                                          -CW  

O ATAQUE AOS “TRAÇAS DA BÍBLIA”

 

Pela forma como Oxford desprezou o Clube Santo, pode-se pensar que os Wesley tinham criado um monstro.

Elesha Coffman

 

Unidos pela retidão:- Os membros do Clube Santo, fundado por Charles Wesley em Oxford e liderado por John Wesley (acima em pé), estimulavam uns aos outros no rumo da perfeição. Nem todos os estudantes era igualmente diligentes, mas o mais devotado membro do Clube era William Morgan, que “resolveu não poupar nenhuma dor para conseguir sua salvação”.

 

Como estudante universitário, Charles Wesley registrou: “A Christ Church é certamente o pior lugar do mundo para se iniciar uma reforma; um homem tem uma grande chance de ser arrancado de sua religião em seu primeiro passo nesse lugar onde o maior escândalo era não ter nenhum escândalo”.

         Ainda assim, esse rico e bem reputado College (Faculdade) de Oxford foi o berço do novo “método” de vida dos Wesley. A Oxford do século  deve ter sido um bom local para o treinamento religioso. Ela existia primariamente para preparar jovens para o ministério na Igreja Anglicana e cerca de 70% dos estudantes vinham a  ser ordenados.

         Poucos desses homens, contudo, sentiam-se “chamados” para o ministério.  A maioria, como os irmãos Wesley, vinha de famílias das classes média e baixa e tinha poucas perspectivas de emprego fora da Igreja. Os Wesley, educados para serem pastores, tinham o ministério em alta consideração, mais do que seus colegas, embora originalmente também quisessem aproveitar Oxford para fazer contatos e alcançar postos confortáveis.

         Em geral, nem os estudantes nem os professores de Oxford expressavam muito interesse na obediência a Deus, tampouco, segundo numerosos críticos em erudição. Oxford era conhecida em toda a Europa como uma escol de festas, na qual os estudantes dedicavam a maior parte de seu tempo a beber, jogar, e conversar com os amigos.

         Em uma revista satírica, lançada em 1721, o auto-nomeado bobo da escola zombava: “Eu conheci um libertino perdulário escolhido para professor de Filosofia Moral; e um professor associado, que nunca tinha olhado para as estrelas em toda a vida, que ensinava astronomia ... e, há não muito tempo, um famoso mestre do jogo e especulador, foi eleito professor de Divindade. Ora essa, parece, a analogia entre o “espanar de almofadas e o tremor de cotovelos, ou, ainda, entre jogar fora as propriedades e salvar as almas”.

         Quando John entrou para o Christ Church, em 1720, ele se adaptou bem.

         Conhecido por ser sério, mas sociável, ele jogava tênis, dançava, lia e assistia peças, mantendo relações estreitas – mas não escandalosas – com várias jovens. Ele chegou a ser punido, uma vez, por uma infração menor ao código de vestimentas. Somente a partir de 1726, quando foi eleito para ser professor associado (fellow) no Lincoln College, John começou a focar-se na autodisciplina.

         “Eu tomei uma resolução, ele escreveu, a qual eu já estava convencido de que era da maior importância, sacudindo de uma vez todo o meu insignificante conhecimento”.

         Eu comecei, cada vez mais, a ver o valor do tempo. Eu me apliquei mais nos estudos. Eu passei a evitar com mais cuidados os pecados presentes. Eu passei a aconselhar outros a serem religioso, segundo o esquema ou religião pelo qual eu moldei minha própria vida”.

         Naquele mesmo ano, Charles matriculou-se no Christ Church. Ele também, em um primeiro momento, deixou-se levar pela vida social de Oxford, mas, devido, em parte, à influência de seu irmão,, rapidamente voltou sua atenção para a espiritualidade.

         Na verdade, Charles liderou a organização daquilo que se tornaria o Clube Santo. Charles começou a participar fielmente das orações e cultos promovidos pela escola. O comparecimento regular era, supostamente obrigatório, mas poucos estudantes concordariam que esse ato, isoladamente, seria suficiente para moldar um bom caráter e um comportamento reto.

         Então, como escreveria depois, ele “persuadiu 2 ou 3 estudantes a acompanhá-lo, e a observar os métodos de estudo prescritos pelos Estatutos da Universidade”. Ele conseguiu até convencer seu vizinho, que “estava nas mãos do mal”, a romper com suas amizades destrutivas e a procurar por Deus.

 

O CLUBE SANTO

 

         O Clube Santo nunca chegou a ser uma sociedade organizada e consistia de 5 ou 6 membros centrais, mais uma periferia que variava em torna de 20 pessoas. Os membros reconheciam John como seu líder, mas eles nem sempre estavam em contato direto com ele.

         Eles usualmente se reuniam privadamente, em grupos de 3 ou 4, para orar, estudar, fazer devocionais e dialogar sobre religião. Em alguns aspectos, o Clube assemelhava-se a outras sociedades pietistas e de caridade da época.

         A famosa Sociedade para Promoção do Conhecimento Cristão (Society for Promoting Christian Knowledge – SPCK), que tinha como alvo erguer escolas beneficentes, distribuir literatura e “em geral, levar a honra de Deus e promover o bem da sociedade”, fundada em 1698.

         John participou de reuniões da SPCK e foi essa organização que pagou sua passagem para a Georgia, em 1735. Como a SPCK, o Clube Santo enfatizava as boas obras. Os membros visitavam regularmente os prisioneiros e os doentes, um ministério iniciado em 1730, quando William Morgan convenceu John e Charles a falar com um homem que havia sido condenado por matar a esposa.

 

 

Sublime Tradição:- O Christ Church da época de John Wesley, retratado na gravura acima, mudou pouco, como se pode ver na foto ao lado. Na verdade, a suspeita de mudança foi uma das primeiras grandes dificuldades dos metodistas. Enquanto o Clube Santo funcionou como uma das outras sociedades pietistas, ele foi tolerado e até mesmo aplaudido. Mas, assim que a forte visão de John Wesley sobre a disciplina começou a se tornar mais proeminente, os oficiais da Universidade de Oxford se tornaram hostis. O reitor do Christ Church, Isham, expulsou os pupilos de John Wesley, sob a denúncia de “espantar os outros da religião”, com seu exemplo.

 

 

         John escreveu: “Nós ficamos tão satisfeitos com nossa conversa, que decidimos ir lá uma ou duas vezes por semana. Assim o fizemos por algum tempo, até que ele quis que eu fosse com ele visitar uma pobre mulher, da cidade, que estava enferma”.

         “Quando refletimos sobre o que havíamos feito, avaliamos que, também nesse ministério seria bom gastarmos uma ou duas horas por semana, uma vez que o vigário da Igreja à qual a pessoa pertencesse não fosse contra”.

         Os membros do Clube entregavam medicamentos, Bíblias e mantimentos aos carentes. Eles celebravam a comunhão na prisão, asseguravam assistência legal aos acusados e também alfabetizavam os prisioneiros.

         “Há apenas dois na prisão que queriam esse acompanhamento”, John Clayton relatou, “John Clanvill, que lia um pouco, e o ladrão de cavalos que não lia nada”. Os primeiros sucessos, somados ao reconhecimento favorável de pessoas como o Bispo de Oxford, deixaram os Wesley e seus amigos otimistas de que o Clube Santo continuaria a florescer.

         Como Clayton escreveu em 1732: “Eu espero em Deus que nós consigamos pelo menos um defensor, quando não um irmão, professor ou obreiro, em cada College da cidade”.

         Esse otimismo teve vida curta. John Wesley já tinha ouvido os primeiros rumores de que os oficiais da Universidade “estavam prestes a explodir o Clube Religioso”.

 

O FIM DO ENTUSIASMO

         Três grandes fatores contribuíram para o fim do Clube Santo. A mais óbvia foi a ida de John e Charles para a América, em 1735. Embora eles tenham deixado um líder capaz, George Whitefield, o Clube não conseguiu superar a ausência e seus carismáticos líderes.

         Uma publicidade negativa também teve um alto custo. Em 1732, os metodistas foram criticados pela morte de William Morgan. Sofrendo de uma enfermidade desconhecida, ele enlouqueceu e morreu repetindo o nome dos Wesley. Os boatos creditavam sua morte à insistência de John para que Morgan comesse rigorosamente, embora o próprio Wesley não o fizesse.

         No mesmo ano, os metodistas foram atacados por ministrarem um prisioneiro acusado de sodomia. Um homem local, Thomas Wilson, anotou em seu diário: “Seja o homem inocente ou culpado, eles não são juízes apropriados, é melhor que ele sofra do que o escândalo da tolerância a um homem que a cidade inteira acredita ser culpado de tão enorme crime”.

         “Qualquer que seja o bom propósito que eles tenham, sua conduta é altamente imprudente e deu margem para terríveis reflexões”.

         Menos de um mês depôs da data dessa nota no diário de Wilson, uma carta anônima ao jornal londrino Fog’s Weekly Journal denunciava “essa seita chamada metodista”, clamando que a “Universidade, no presente, não está nem um pouco incomodada com esses filhos da discórdia, cujo número cresce diariamente e que queriam fazer do local nada mais do que um monastério”.

         A notícia citava ainda a “absurda e perpétua melancolia do grupo, e superstições, escrúpulo e loucura entusiástica”, oferecendo conselhos sobre como terminar com essa “estupidez sombria”.

         O Clube Santo não se dissolveu em 1732, mas eventos como esse colocaram o grupo sob vigilância estreita. Finalmente, em 1768 a administração da Universidade tomou ações decisivas contra os vestígios dos metodistas em Oxford, expulsando seis estudantes sob acusações de fraude.

         A atitude geral para com os metodistas – e qualquer um que se imiscuísse na cultura enraizada de Oxford – aparece nessa conversa entre James Boswell e o Dr. Samuel Johnson.

         Johnson: “Senhor, a expulsão de seis estudantes da Universidade de Oxford, que eram metodistas e não desistiram de pregar e exortar publicamente, foi extremamente justa e apropriada.. O que tem a fazer em uma Universidade alguém que não queira ser ensinado, mas que presume que ensinará?”

         “Será que uma Universidade é o melhor local para se aprender religião?”  

         Boswell: “Mas não foi muito duro, senhor, expulsá-los, pois eu ouvi que eram boas pessoas”.

         Johnson: “Eu até acredito que eles possam ser boas pessoas, mas o fato é que eles não se encaixam na Universidade de Oxford”. “Uma vaca é um animal muito bom no campo, mas nós a retiramos de um jardim”.

         De fato, os campos provaram ser locais muito mais produtivos para o trabalho de John e Charles Wesley. Por meio da pregação ao ar livre, eles alimentaram a faísca que Oxford tinha tentado apagar.

PAGANDO A FIANÇA:- O pai de John Wesley visitou prisioneiros durante seu tempo de estudante no Exeter College, em Oxford e, depois, viria a se tornar, ele mesmo, um prisioneiro, por motivo de uma dívida não paga. Esse histórico familiar provavelmente ajudou John em sua preocupação especial para com os indigentes, para quem ele não hesitava em gastar (como diz o título da ilustração acima), “seu último vintém”.

 

 

OS CUPIDOS

Quando os irmãos Wesley concordaram em ajudar um ao outro a encontrar esposas, eles nunca imaginaram que esse acordo iria resultar em desastre.

Janine Petry

 

         Em 1738, John e Charles fizeram um voto de que nenhum deles se casaria sem receber a prévia aprovação do outro. Para um dos irmãos, o acordo viria a confirmar uma feliz vida amorosa, mas, para o outro, ele provavelmente destruiu qualquer chance de felicidade.

         Voltando para 1736, John tinha descoberto o seu primeiro amor, Sophia Hopkey, na Georgia. Uma bem dotada moça de 18 anos, “Miss Sophy”, como John sempre a chamava, foi uma de suas primeiras amigas na América.

         John, naquela ocasião, com 33 anos, sentiu seu coração se inclinar por ela, mas resolveu esperar e observar a si mesmo, cuidadosamente. Apesar de gostar do tempo que passava com Sophy, John temia que um relacionamento viesse a prejudicar sua carreira como missionário para os índios. Depois de muita oração, ele tomou a dolorosa decisão de não se casar até que tivesse começado o seu trabalho.

         Após tomar conhecimento dessa decisão, Sophy, que usualmente tomava seu café da manhã e também tinha aulas com John, disse a ele que não mais o encontraria desacompanhada. Ele foi, contudo, autorizado a visitá-la em sua casa.

         Após uma dessas visitas, John escreveu em seu diário: “Esta foi realmente uma hora de julgamento. Suas palavras, seu ar, seus olhos, cada movimento e gesto seu, foram cheios de grande delicadeza e doçura. Eu não sei qual seria a conseqüência se então eu tivesse apenas tocado em sua mão! E como fui capaz de evitar tudo isso, eu não sei. Certamente, Deus está sobre tudo isso!”

         Pouco depois dessa visita, John recebeu a chocante notícia de que Sophy havia concordado em se casar com o Sr. William Williamson, “se o senhor Wesley não tiver objeção”. John imaginou, em princípio, que ela  o estava testando, mas acabou concluindo que se ela tinha consentido em se casar, sua chance tinha passado.

         Embora desolado, ele não objetou. Por um tempo, a ênfase de John no ministério itinerante o levou a renunciar ao casamento. No folheto Pensamentos sobre o Casamento e o Celibato (Thoughts on Marriage and Celibacy), ele recomendou o celibato para todos os que dedicassem suas vidas à “causa do Reino de Deus”.

         Adicionalmente, ele declarou que “aquele que tem o poder de se abster do casamento, está livre de inumeráveis julgamentos domésticos e que esses altamente privilegiados celibatários deveriam se orgulhar das vantagens que desfrutavam e cuidar de mantê-las”.

Mais tarde, ele mudou de opinião e começou a procurar uma parceira para a vida, confiante de que seu irmão o ajudaria a fazer uma boa escolha.

 

PLANOS BEM DESENHADOS:-  A colônia de Savannah, retratada acima em seus primeiros estágios, não estava preparada para John quando ele chegou. Nem a sua casa nem a Igreja estavam prontos. Ainda pior, John não estava pronto para Savannah. Ele se provou inábil para ministrar tanto para os índios como para os colonos, e ficou transtornado por um romance inesperado.

 

 

UMA SEGUNDA CHANCE

 

         John conheceu Grace Murray quando ela tinha 23 anos. Viúva de um marinheiro que morrera afogado, ela era atraente e tinha uma personalidade cativante, bem como uma voz encantadora. Na primavera de 1740, Charles a admitiu a uma sociedade metodista.

         Ela viria a assumir diversas responsabilidades, incluindo a supervisão de um orfanato em Newcastle. Certa vez, John ficou doente e Grace cuidou dele. Enquanto foi sua enfermeira, o sentimento de um pelo outro cresceu.

         John disse a ela: “Se um dia eu vier a me casar, eu penso que você será a pessoa”. Assim que melhorou, John a convidou para visitarem juntos várias sociedades em Yorkshire e Derbyshire, e eles cavalgaram muito juntos.

         Como combinado, John informou a Charles que pretendia se casar com Grace. Charles empacou. Grace vinha de uma família pobre e já tinha até mesmo como empregada doméstica.

         Charles estava convicto de que esse casamento arruinaria o ministério de John, os pregadores o abandonariam, as mulheres, enciumadas, iriam romper as sociedades metodistas e Grace nunca seria aceita como a esposa de seu grande líder.

         John argumentou que a origem humilde de Grace não significava nada, uma vez que isso não afetava o seu espírito ou os seus talentos. Mas Charles estava determinado a evitar o que ele achava que seria uma tragédia.

         Ele rapidamente cavalgou até onde Grace estava e a convenceu a se casar com John Bennett, um dos pregadores metodistas, a quem ela também tinha tratado como enfermeira.

         Persuadida de que isso seria o melhor, ela, relutantemente, acompanhou Charles a Newcastle, onde Bennett morava e, na manhã seguinte, os dois estavam casados. John ficou com o coração partido. Charles pensou que tinha evitado “conseqüências indesejáveis”, mas as suas ações provavelmente causaram mais mal do que bem.

Curta Lua de Mel:- O amor de John por sua esposa Mary, ainda era ardente, quando ele escreveu essa carta, apenas um mês após o casamento. Ele derramou: “Escrevo muito cedo? Não tem você o direito, acima de todas as pessoas, de ouvir notícias minhas tão logo quanto eu consiga enviá-las? Você certamente tem direito a toda prova de amor que eu possa dar e de toda a ajuda que esteja em minhas mãos. Porque você me deu até mesmo o seu próprio ser.Oh, como nós podemos agradecer a Deus o suficiente, por ter permitido que nos encontrássemos! Eu estou totalmente surpreso com a Sua benignidade. Que não apenas nossos lábios, mas nossas vidas, revelem o Seu louvor!” Infelizmente, o relacionamento começou a desmoronar antes do primeiro ano que passaram casados.

 

 

TERCEIRO ROUND

 

         A interferência de Charles no casamento de Grace Murray pode ter sido a responsável por empurrar John para um relacionamento ainda mais doloroso com a Sra. Mary Vazeille. Um amigo comum apresentou John a Mary, uma viúva, e o convenceu de que ela seria uma boa companheira. John rapidamente concordou e a pediu em casamento.

         Novamente, Charles desaprovou fortemente a decisão, mas John não estava mais disposto a ouvi-lo. Charles o tinha impedido de se casar com a mulher que ele amara e agora estava determinado a não permitir sua interferência outra vez.

         A pressa de John surpreendeu a todos. Ele mencionou sua intenção ao irmão em um sábado, 2 de fevereiro de 1751. No domingo, 10 de fevereiro, ele caiu no gelo e deslocou sua perna.

         Ele pediu que o levassem para a casa de Mary para ser tratado. Na segunda ou terça feira, eles estavam casados. Embora mais novo John tivesse receado que o casamento pudesse acabar, com o seu ministério, a essas alturas de sua vida, ele estava envolvido demais com seu trabalho para desistir dele.

         Em seus arranjos pré-nupciais, ele recusou ter controle sobre os bens de sua esposa, estipulando apenas que não aceitaria nenhum limite para as suas pregações ou viagens. “Se eu achar que isso vá acontecer”, ele disse a Mary: “Por mais que eu te ame, eu nunca mais verei a sua face”.

         Poucos meses depois, já estava óbvio que John tinha feito uma escolha lamentável.  Sua esposa tentou viajar com ele, mas não conseguia manter o ritmo e freqüentemente reclamava. John disse que parecia que seus gemidos pareciam que “arrancavam minha carne dos ossos”.

         Apesar de sua esposa ter muitas qualidades, estas foram ofuscadas por seu ciúme, especialmente depois que ela decidiu passar a ficar em casa enquanto John viajava. Incapaz de confiar na retidão de seu marido e na firmeza de suas intenções, ela o espionava. Abria cartas, rebuscava papéis particulares e, algumas vezes, chegou a entregar alguns para os inimigos de Wesley, na esperança de lançar algum estigma sobre seu caráter.

         Ela deixou John mais de uma vez, voltando somente quando ele implorava. Após 20 anos, então, ela partiu com o desejo de nunca mais voltar. John escreveu em seu diário: “23 de janeiro de 1771 – Até hoje não sei por qual motivo, - partiu para Newcastle, almejando nunca retornar. Non eam reliqui: non dimissi: non revocabo (Eu não a abandonei, eu não a mandei embora, eu não vou chamá-la de volta)”.

UM FINAL FELIZ

         Ao contrário de seu irmão, Charles teve relativamente poucos problemas para manter o foco no ministério e ficar longe do casamento. Até que surgiu Sara Gwynne.

         Em 1747, ele conheceu a Srta. Gwynne, chamada Sally, em uma viagem para Wales. Ela tinha 21 anos e ele quase 40. Ela vinha de uma rica e bem estabelecida família anglicana, ele era um pobre metodista itinerante.

         Apesar de tudo, como Charles disse a ela mais tarde, “foi amor à primeira vista”. Charles partiu para uma viagem missionária à Irlanda, quase um ano depois de conhecer Sally. A correspondência que se estabeleceu entre os dois, enquanto ele estava longe, logo evoluiu para o amor. No ano seguinte, Charles escreveu esse verso: “Two are better far than one,/For conseul or for fight/ How can one be warm alone/ or serve his God aright?” (Melhor é serem dois do que um,/ para conselho ou peleja./ Como se aquentará um só,/ Ou servirá seu Deus com certeza?”).

         No dia 8 de outubro de 1748, Charles velejou de Dublim para a casa de Sally. Ele a pediu em casamento ela aceitou. Mas havia ainda uma pessoa a ser consultada. Charles se encontrou com John em Bristol para discutir o seu casamento. Embora John temesse que o casamento fosse afastar seu irmão da busca do Reino de Deus e sua felicidade, John concordou com a união.

         Charles registrou: “Nós discutimos juntos cada detalhe, e fomos um coração e mente em todas as coisas. John até mesmo concordou em dirigir a cerimônia.

         No dia de seu casamento, Charles escreveu: “Nenhuma nuvem foi vista desde a manhã até a noite. Eu acordei às 4h, passei três horas e meia orando e cantando, com meu irmão, com Sally e com Beck”.

         Às 8h eu levei minha Sally para a Igreja. O Sr. Gwynne me entregou sua filha, sob as bênçãos de Deus; meu irmão juntou nossas mãos. Foi a mais solene estação do amor! Eu nunca senti tanto a presença divina em um sacramento. Nós estávamos cheios de alegria, mas não dávamos risadas. Sérios, mas sem tristeza. E meu irmão parecia ser a pessoa mais feliz de todas.”

                                                                                                                            Janine Petry

 

 
 
 
 

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